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O inconformismo nunca dorme

Roman J. Israel, Esq.(Roman J. Israel, Esq.)

Classificação: 14 anos

Estréia: Sem previsão no Brasil

Genêro: Crime, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 02min

Nota do crítico

Crítica

Idealismo incorruptível (ou quase)

É praticamente universal o nível de idealismo que toma conta dos recém egressos no mercado de trabalho, principalmente o grupo dos jovens graduados. Há todo aquele afã para se destacar nessa selva de competitividade extrema, coexistindo também com a sede por mostrar a própria capacidade, e reverter isso em benefícios em prol da sociedade. Uma correspondência, quando alcançada, que faz o senso de sacrifício valer a pena.

Roman J. Israel, Esq. (2017), título curioso para um personagem idem, trata um pouco sobre tais valores arraigados e, dessa forma, extremamente otimistas, que o personagem título apresenta. Talvez a diferença maior esteja na dimensão que tal intento assume na sua vida, alguém que sempre foi assim, e que vive do e para o trabalho, ainda que as glórias sejam minguadas em face do subaproveitamento do seu potencial, e das figuras bitoladas com quem tem que lidar (vide sequência inicial, quando é advertido em uma audiência).

Transitando pelos longos corredores de tribunais, entre casos de crimes e contravenções cronicamente frequentes, Roman é convidado a fazer parte de uma grande firma, abandonando com isso uma longeva sociedade, zona de segurança onde o personagem estava ancorado. Sua vida de rotina cronometrada, embora com grandes aspirações tangenciando-a, muda. Tudo muda, cedendo lugar à hostilidade de um ambiente desafiador.

Se antes estava na selva, agora precisa sobressair onde foi jogado, o olho do furacão que é a realidade dos ideais quebrados.

Denzel compõe um personagem fascinante, repleto de maneirismos destacáveis, o que ajuda na delimitação dos seus traços subjetivos.

Quando a fortaleza tomba

Seria uma empreitada sem nexo listar algumas obras em que o ator Denzel Washington se destaca. Porque, basicamente, todo e qualquer filme melhora quando seu nome está incluído no elenco. Carismático, no alto dos seus 62 anos, possui uma filmografia invejável, além de detentor de dois óscares, por Tempos de Glória (1989) e Dia de Treinamento (2001).

Colin Farrell se apequena diante de uma atuação, sob todos os aspectos, gigante.

Pois bem, em Roman J. Israel, Esq. não poderia ser diferente. Com um roteiro que, no final das contas, não é a principal qualidade do longa (na verdade, em alguns momentos o termômetro de interesse baixa sensivelmente), ele é a luz que ilumina aspectos, que de outro modo, passariam batidos. Pois ele encarna um outsider, com traços e trejeitos que fazem a história ganhar contornos chamativos, um verdadeiro estudo de personagem.

Vestuário com um ou dois números maiores do que precisava (dando um ar visível de desleixo), um gingado “pesadão”, como quem tem dificuldade de se firmar sobre os dois pés, além de uma verborragia desconcertante, marcam algumas das características do curioso advogado. Algo tão próximo da Síndrome de Asperger (denominação em desuso para o Transtorno do Espectro Autista de grau leve), que nos faz desconfiar se essa não foi a intenção. Delinear um sujeito com alta aptidão mental para o trabalho que desempenha, em conjunto com a total falta de traquejo social, tornando-o uma espécie de eremita advocatício, sem amigos, família ou simpatizantes evidentes.

E de fato, a mudança de alcance do seu trabalho, conquanto seja o ensejo para a realização dos seus sonhos, o tira da zona de conforto, o coloca diante de um universo social que o cobra, além de empurrá-lo para a corrupção dos pequenos atos, inadvertidamente aceitos. No entanto, de forma inequívoca, presentes.

E é exatamente isso que afetará a sanidade física e mental do personagem, dividido entre as glórias imediatas e o longínquo desejo de mudança concretizado. É como se não suportasse ser ele mesmo, mas ao mesmo tempo sofresse com a inevitável transformação. Deverá, ato contínuo, se adaptar a nova vida, ou tentar preservar ao máximo sua essência? Este parece ser o dilema maior do filme.

Clima de paranoia se fazendo notar, embora não tenha sido devidamente aproveitado (infelizmente).

Ator bom, filme mediano

Apesar do ótimo trabalho desempenhado por Denzel, que o faz merecedor da indicação do Oscar de Melhor Ator deste ano, falta algo ao filme. Talvez um conflito mais visível, que seja uma força motriz relevante à narrativa; talvez um ritmo mais cadenciado, considerando que este decai a partir da metade; talvez um elenco de apoio mais afiado (se bem que o regular Farrell quase nunca se mostra uma escolha acertada); talvez, finalmente, uma história que não seja apenas uma ratificação da necessidade de termos valores pessoais, e mantê-los, ainda que através de terceiros, em uma espécie de legado.

De uma maneira ou de outra, a performance de Denzel ficará registrada como mais um grande trabalho, condizente com sua persona e capacidade.

Notas

Média