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O ninho aconchegante não é mais suficiente

Lady Bird: É Hora de Voar(Lady Bird)

Classificação: 14 anos

Estréia: 15 de Fevereiro de 2018

Genêro: Comédia, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 34min

Nota do crítico

Crítica

O ensino médio de Frances Ha

A adolescência é esse período meio louco que todos têm que passar. Durante anos, tão ardorosamente ansiado, para só então, depois de sentir o gostinho da decepção generalizada, ser temido, e finalmente, renegado.

São os anos dourados da rejeição, isolamento, indiferença. Das oscilações humorais, infelicidades constantes e vazios crônicos. Dos sonhos contidos, ingênuos, e ao mesmo tempo desesperançados de uma mudança qualquer no estado das coisas. Finalmente, de ser notado(a), ainda que não seja de uma maneira auspiciosa.

Estranhas no ninho. O deslocamento social é um dos maiores terrores da adolescência.

Greta Gerwig, a queridinha do diretor Noah Baumbach (com quem mantém um longevo relacionamento por trás das câmeras), roteiriza e dirige Lady Bird: É Hora de Voar (2017) e parece ter conseguido capturar muito honestamente seus anos difíceis de colegial, na pacata cidade de Sacramento, Califórnia. Há os maneirismos de Baumbach em cada situação de constrangimento (o que torna esta uma espécie de prequel do simpático Frances Ha), mas há também uma autenticidade que brota dos diálogos, humanizando e dando credibilidade ao roteiro.

Este caráter praticamente autobiográfico é essencial para situar o público de forma empática ao que este período de transformações representa, não só na vida de Gerwig, mas de todos que têm reminiscências fortes e nostálgicas destes anos decorridos. Não à toa, a história se passa em 2002-2003, ainda pairando um clima muito forte de 11 de setembro a impregnar o imaginário das pessoas, nos seus medos mais íntimos de sair de sua zona de conforto (a cidade provinciana), e alçar voos mais altos, para além do que os sonhos são capazes de alcançar.

Não é o caso de Lady Bird, interpretada com uma atuação de entrega pela jovem Saoirse Ronan (Com Amor, Van Gogh, Brooklin). Impetuosa, sagaz, irônica quando preciso, ela não se furta de falar aquilo que transborda do coração, mesmo que isso acabe lhe trazendo transtornos. Apesar da resistência da mãe (Laurie Metcalf), uma atarefada enfermeira, seu maior desejo é ser admitida por uma das grandes universidades do país.

O problema é que Lady Bird não é exatamente boa em nada. Não é uma aluna excelente (na verdade, um desastre em matemática!), nem se destacou em nenhuma atividade extracurricular notável. Ninguém acredita nela, nem mesmo sua mãe, o que gera todo o tipo de embates entre as duas, ao ponto de causar grande distanciamento afetivo.

Conflito geracional revela incompatibilidades, frustrações e incomunicabilidade.

E não seria este o grande nêmesis da adolescência, a falta de compreensão, apoio, ou no mínimo, escuta dos outros? Não seria isso a grande origem do abismo que separa filhos e pais, a mera necessidade de impor regras destes, encaixar os filhos dentro dos padrões vigentes, e produzir mais um autômato para o mundo adulto? E ao mesmo tempo, será que é apenas disso que todos os filhos precisam?

Daí que este não é apenas um exercício inconsequente, uma comédia de constrangimentos para fazer rir. É um filme que deve ser respeitado pelo que ele é: o retrato fiel de uma geração, não muito distante da atual. 

Não há melhor lugar que nossa casa

O caminho das pedras, adolescência, não é fácil. E até chegar ao “oásis” da universidade, muitos “não” são recebidos, muitas portas fechadas, muitas expressões de desdém e raiva recebidas.

Até lá, Lady Bird terá de encontrar-se em seu locus social ideal, seja na companhia da outsider Julie, ou no grupo descolado da escola; definir-se no relacionamento que supra de verdade sua vontade de viver experiências amorosas reais (com Kyle ou Danny), evitando viver de expectativas não cumpridas; brilhar (ou não) na peça teatral que se propõe a participar; e ainda, ser a aluna-filha perfeita que todos querem, mesmo que isso não seja possível.

Ator revelação de Me Chame Pelo Seu Nome (2017), Timothee Chalamet faz ponta discreta em Lady Bird como o estiloso Kyle.

Ao final, a lição é aprendida, não sem sua dose de dor. E mesmo que o tão almejado voo seja um processo necessário, fica a paz da reconciliação frente a todas as inquietações e medos de permanecer engessada no tempo. Pois que nem todas as respostas precisam estar tão longe, em outra cidade, família ou círculo social.

Talvez o que Greta Gerwig quis ao se projetar em Lady Bird foi fazer uma declaração de amor nostálgica a Sacramento, sua cidade Natal. Que tudo que é e conseguiu alcançar também é devido às lembranças – boas ou ruins – que tenha tido.

Notas

Média