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O olhar cético diante da fé

A Aparição(L'apparition)

Genêro: Drama

Nacionalidade: França

Duração: 2h17min

Nota do crítico

Crítica

Ao entrar na sala de cinema para assistir A Aparição (Xavier Giannoli, 2017), me veio a seguinte pergunta: “Qual discurso o filme irá abraçar? Dos fiéis que enxergam a Virgem Maria como uma manifestação de Deus no mundo real ou dos céticos que de tudo duvidam?”

O olhar que o longa de duas horas e 17 minutos nos revela para adentrarmos neste enredo é do traumatizado repórter de guerra Jacques M. (Vincent Lindon) que, desnorteado após a morte do fotógrafo que sempre esteve ao seu lado, se vê convidado pela cúpula do Vaticano para integrar a equipe da Comissão de Investigação Canônica. Sua missão: saber de uma vez por todas se a jovem Anna (Galatea Bellugi) testemunhou duas aparições da Santa Maria em uma pequena cidade francesa que se tornou um santuário onde peregrinos do mundo todo buscam uma luz para auxiliar no tortuoso caminho de seus sofrimentos.

O mote está estabelecido mas felizmente o filme aborda temáticas diversas e bastante terrenas: para começar, agrada quem gosta dos bastidores do jornalismo investigativo pois retrata de forma exemplar diversas maneiras de abordagem e pesquisa, o que não é de se estranhar por esta história ter sido roteirizada e dirigida pelo também jornalista Xavier Giannoli.

Entre várias entrevistas que acabam se tornando complexas e indo a um rumo inesperado, destaco a conversa de Jacques com dois fazendeiros que ouviram um grito no local próximo do que se julga ter ocorrido a aparição: praticamente uníssonos, eles respondem de forma ansiosa e atropelando a pergunta do repórter, o que demonstra uma orgânica cumplicidade e urgência possível apenas para duas pessoas que testemunharam simultaneamente algo assombroso. Ainda no campo da comunicação, a objetificação midiática de Anna é retratada de forma bastante eloquente.

Entre os interesse externos e o mistério da aparição, o filme ainda consegue revelar o lado humano de Anna (Galatea Bellugi)

Outro destaque são as excelentes atuações de Vincent Lindon (observe como o seu personagem cético reage toda vez que os membros do Vaticano tratam sobre exorcismos ou demônios) e Galatea Bellugi (na primeira entrevista com a Comissão, o diretor foi bastante generoso assim como ousado ao deixar que o público avaliasse, em um close-up de Anna, se ela está ou não mentindo sobre a aparição).

Outro aspecto interessante é ver os bastidores do pomposo Vaticano, que se apresenta sem reservas, mostrando a micropolítica das tensões que a fé livre pode causar em sua instituição milenar ao passo que a igreja da pequena cidade francesa, comandado pelo monsenhor Borrodine (Patrick d’Assunção), afronta abertamente aos ditames impositivos da Comissão.

Caso deseje saber se o filme irá pender para a denúncia de uma farsa ou um milagre, posso lhe dizer apenas que existem algumas facilitações narrativas dentro do roteiro que estão além do acaso, todavia esse argumento não ajuda muito pois até os filmes menos religiosos também são passíveis de apresentar tais soluções. Mas esse detalhe não incomoda pois o enredo principal desse filme é justamente o que nos faz humanos: para aliviar o desamparo e a solidão, nada melhor do que a reconexão verdadeira, o acolhimento piedoso no colo da Mãe de Deus.


Em Natal, você ainda pode conferi-lo no Festival Varilux de Cinema Francês, na Cinépolis Natal Shopping, segunda-feira, 18/06, às 19h40.

Notas

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