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O processo: os bastidores de um golpe

O processo()

Classificação: Livre

Estréia: 17 de maio de 2018

Genêro: Documentário

Nacionalidade: Brasileira

Nota do crítico

Crítica

O processo (2018), documentário lançado por Maria Augusta Ramos, explora os bastidores do cenário político brasileiro que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em agosto de 2016.

Mostrando a Esplanada dos Ministérios em Brasília com um plano geral em plongée – à direita manifestantes a favor do processo, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol, e ao lado esquerdo militantes contrários, trajados de vermelho -, o filme já se inicia apontando uma premissa básica: um país dividido ideologicamente, polarizado politicamente. Diante da impossibilidade do debate e da negociação, é necessário, portanto, assumir um dos lados, e o filme o faz claramente. Ainda que veementemente contraste as opostas argumentações em torno da acusação de crime de pedaladas fiscais e emissão de decretos de suplementação orçamentária que sustentaram o desenrolar dos fatos, levando à saída de Dilma do principal cargo da república, O processo é uma leitura parcial dos últimos acontecimentos políticos que abalaram o país.

Essa parcialidade, que pode ser facilmente inquirida no filme como uma estratégia tendenciosa, é reforçada ainda pela ausência de entrevistas ou qualquer outro tipo de intervenção mais sistemática, própria dos documentários. Presente nas muitas reuniões privadas do PT para agenciar a argumentação da defesa, é inevitável que o público se questione sobre a relação da diretora com o partido, uma vez que essa abertura não ocorre quanto à oposição.

Ainda assim, a presença in loco nos eventos apresentados e o histórico de Maria Augusta Ramos em documentários de cunho políticos, dessa vez fazendo uso de imagens de arquivo, como da própria TV Senado, bem como do famoso áudio de Romero Jucá e Sérgio Machado (“com o Supremo, com tudo”), criam uma legitimidade discursiva que exime o filme de uma configuração panfletária, atentando-se essencialmente as razões obscuras que levaram ao golpe e à desconstrução do Partido dos Trabalhadores.

Tal como o romance homônimo de Franz Kafka, onde o protagonista é levado sem justificativa a responder por um crime incompreensível em um confuso processo, o filme apresenta a defesa da presidenta em uma luta previamente perdida para inocentar Dilma Rousseff – ou, na melhor das hipóteses, ganhar tempo nesse jogo de cartas marcadas que, arquitetado por uma direita enfraquecida e amedrontada com as constantes denúncias da Operação Lava-Jato, a silencia e a desqualifica.

Cabe ressaltar, nesse sentido, que as figuras-chaves desse cenário político entram tardiamente no filme, como a própria Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, este com uma participação quase simbólica. Isso faz com que a produção se detenha em sujeitos igualmente importantes no período, em especial Gleisi Hoffmann, José Eduardo Cardozo, Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin. Cria-se, portanto, um sentimento de cumplicidade na medida em que temos acesso também a facetas mais humanas dessas pessoas constantemente bombardeadas pela mídia massiva – outro elemento constante no filme. Em contraposição, no entanto, é inevitável não esbarrar nas ironias poeticamente construídas dos frágeis argumentos da oposição, principalmente no que tange à Janaína Pascoal, traçada como alguém claramente desequilibrada e volátil.

Quando o inevitável acontece, resta apenas a comemoração dos vitoriosos e o silêncio dos partidos aliados ao governo. No entanto, passados algum tempo, e sabendo de outros desmembramentos ocorridos desde então, o constrangimento e a desilusão são quebrados pelas acaloradas manifestações do público na sala de cinema, que tem interagido de maneira efusiva aos eventos apresentados.

No mais, ao mesmo tempo em que há um certo didatismo, em vista do acompanhamento linear e das muitas caixas de textos que apresentam detalhes das investigações, o filme exige do espectador um conhecimento prévio em relação ao posicionamento político dos agentes enquadrados, pois não há referências partidárias nem mesmo legendas com seus nomes.

Por último, uma distinção que aponta para um futuro desolador: enquanto o processo de investigação acolheu pacificamente as muitas manifestações existentes no período, os protestos contra Michel Temer, agora ocupando em definitivo o posto de presidente da nação, sofrem com a violência policial. Uma intolerância que aponta para novos e tenebrosos tempos, que, esperamos todos, dure o mínimo possível. A sensação, obviamente, é a de que muita água ainda há de correr nesse rio, e contrariando qualquer prerrogativa, um misto de descrença e esperança passa a coabitar num mesmo corpo.

O filme está em cartaz na Cinépolis no Natal Shopping, e ganhou sessões extras em função do grande interesse do público potiguar. Vale a pena, não deixem de conferir.

Notas

Média