Pular para o conteúdo

O terror que se ouve abafado e em sussurros

Um Lugar Silencioso(A Quiet Place)

Classificação: 14 anos

Estréia: 05 de Abril de 2018

Genêro: Drama, Horror, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 30min

Nota do crítico


Em uma fazenda isolada em meio às ruínas dos Estados Unidos, uma família (pai e mãe – John Krasinski e Emily Blunt, e seu casal de filhos pequenos) vive em absoluto silêncio, se comunicando através de sinais na tentativa de sobreviver a uma ameaça desconhecida atraída por sons.


Crítica

Um gênero moribundo volta a respirar

Quando uma obra cinematográfica entende o poder da imagem e do som, e os usa em prol da narrativa, abre-se margem para o nascimento de filmes que sobrevivem ao teste do tempo. O terror, um dos gêneros que mais sabem se apropriar dos apelos e significados desses elementos, brilhou em produções ímpares, com os slashers dos anos 70 e 80 (Halloween – A Noite do Terror, Sexta-Feira 13), seguindo a melhor tradição do giallo italiano, com as histórias fantasmagóricas de casas mal assombradas (Horror em Amityville, Invocação do Mal), ou mais recentemente, os found footage e sua tentativa de conferir “autenticidade” às suas histórias (Atividade Paranormal e continuações).

De comum entre essas obras, além do susto fácil e óbvio apelo atencional ao público, há a maestria com que o som é catapultado à condição de linguagem, eloquente mesmo quando ausente. E de uma maneira que expande as imagens-chave em interpretações possíveis, dotando-as de conotações que vão muito além do superficial.

Eis a cartilha que é seguida a risca pela mais nova cria da Platinum Dunes, a produtora de remakes de antigos exemplares de terror B. Trata-se de Um Lugar Silencioso, o típico filme cujo trailer e material de divulgação pouco fazem a favor, a não ser criar antipatia.

Aqui, felizmente, não chega a soterrar o filme: pelo contrário, ele se revela uma daquelas surpresas que se beneficiam de um boca-a-boca que, em efeito cascata, é desencadeado pelos textos favoráveis de críticos incautos. E por um público sedento de ser psicologicamente tensionado, até o limite do razoável, coisa que boa parte da safra atual do gênero não consegue mais fazer.

E qual a razão de tamanho burburinho em torno de Um Lugar Silencioso? É isso tudo que dizem?

Se há algum filme que merece ser alardeado é este, sem dúvidas. Um fiapo de história que trabalha com pouco, constrói uma aura de tensão carregada, e ainda torna seus personagens tão críveis quanto humanizados. Isto já garante fugir da maioria dos clichês atuais do gênero.

Gritos que matam

Em um tempo indeterminado, família vaga através de pequenas cidades interioranas destruídas e paisagens desoladas, sem uma única pessoa por centenas e centenas e quilômetros. Uma ameaça espreita, e a qualquer sinal de ruídos, sejam vozes, sejam barulhos advindos de algum objeto, a vida de todos – John Krasinski e Emily Blunt, junto com seus dois filhos – estará por um fio.

Após um ano permanecendo estabelecidos em uma fazenda desabitada, ainda precisam lidar com perguntas em aberto sobre a “ameaça”, um bebê a caminho, e traumas e questões íntimas não de todo superadas. Precisam, enfim, aprender a viver, se adaptando ao cenário de morte que os cerca.

Nisso, são personagens delineados com sensibilidade e credibilidade. A filha que desabrocha para a adolescência (Millicent Simmonds, esforçada), por exemplo, confusa em plena situação de mudança de papeis, difícil de ser entendida e de se abrir, como a maioria dos adolescentes. Ou o garoto assustado (Noah Jupe, visto no recente Extraordinário), ainda muito dependente do pai, quando as circunstâncias exigem autonomia.

Também pudera a atenção despendida aos personagens: o núcleo reduzido a uma família permite um cuidado maior com a construção e evolução ao longo da trama. O que é totalmente condizente com o enredo focado, que se concentra quase que exclusivamente em um único ambiente, se ajustando de maneira eficiente com a proposta de filme de sobrevivência.

Em um mundo completamente devastado, as crianças são constantemente empurradas para o amadurecimento precoce. É a única garantia de sobrevivência.

Nisso, o elemento de tensão a partir do silêncio é conduzido com destreza. A economia de palavras, valorização das imagens para definir situações, concentração em pequenos detalhes, trilha condizente com o clima pesado, edição e mixagem de som construídas a contento, jump scares a partir de sons que aumentam em intensidade abruptamente. Tudo contribui para puxar o público para um vácuo de medo e antecipação nervosa.

O silêncio desesperador é também o que salva.

O resultado fica entre minimalista, claustrofóbico e desesperançado. Como as coisas são conduzidas na narrativa, muito difícil não pensar na impossibilidade de salvação para a família. E quando o público se der conta disso, ele estará provavelmente fisgado e atento até o fim.

Sobre perdas familiares e superações catárticas

Descrito dessa forma, o roteiro de Um Lugar Silencioso ainda se assemelha a uma história de terror, ainda que acima da média. Com uma premissa simples, que carrega ecos das histórias sobrenaturais do escritor Stephen King (não à toa, bastante elogiado pelo próprio assim que foi lançado), como tantas outras que são lançadas atualmente.

No entanto, o diferencial, concentrado na atenção ao componente humano, o torna um produto que sabe ajustar muito bem o seu subtexto. Desta forma, no fundo temos um filme sobre elaboração do luto familiar, sobre a superação do que foi deixado para trás. Que faz seus personagens avançarem não somente à mera sobrevivência, mas acima de tudo à aceitação, à consciência sobre a necessidade de virar a página. Algo que é sublinhando por um desfecho aberto, e ao mesmo tempo, catártico.

Quanto ao ator-diretor John Krasinski, é alguém para se acompanhar a carreira. Ainda um iniciante, com apenas outros dois longas esquecíveis no currículo, seu mais recente trabalho revela um talento a ser lapidado.

E que venham mais surpresas de sua autoria, como esta.

Notas

Média