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O vazio em “Mãe Só Há Uma”

Mãe Só Há Uma(Don't Call me Son)

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

Estréia: 21 de julho de 2016

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil

Duração: 1h 22min

Nota do crítico

Crítica

Uma empregada cuida com afeto de uma criança que tem sérias dificuldades em se relacionar com sua mãe biológica. Esse é um dos subtextos do riquíssimo De que Horas ela Volta?, de Anna Muylaert. Um ano depois do sucesso do referido filme, a diretora promete com Mãe Só Há Uma uma evolução desta abordagem, fazendo com que a figura materna cheia de afeto possuísse um lado obscuro na gênesis desta relação, quando sequestra o bebê ainda na maternidade.

Porém, não se cumpre a promessa de um filme maduro com diversos dilemas e contradições. Um dos motivos disso acontecer poderia ter sido um grande acerto para a trama: observar o ponto de vista do jovem Pierre (ou Felipe, como sua família biológica o reconhece, interpretado pelo introspectivo Naomi Nero) mas o caos em sua vida torna-se rarefeito em termos de situações e consequências.

A introspecção de Pierre / Felipe (interpretado por Naomi Nero) possui o mesmo tom em todos os seus dilemas (Crédito: Divulgação)
A introspecção de Pierre / Felipe (interpretado por Naomi Nero) possui o mesmo tom em todos os seus dilemas (Crédito: Divulgação)

Quando o personagem Pierre está sob a tutela da sua família biológica, relevando algumas frases de efeito, ele se comporta como qualquer jovem adolescente rebelde, seja ele criado pelos pais biológicos ou adotado. Em uma dada cena na qual o garoto participa de uma festa de boas-vindas, aguardava ouvir nos cochichos dos convidados comentários maldosos sobre a mãe que raptou, o que poria em xeque o amor do garoto por esta então desconhecida.

O filme também não possui tempo de projeção para nos afeiçoarmos à Aracy (interpretada por Dany Defussi, que de modo bastante criativo, também atua como Glória, a mãe biológica) que apenas cumpre o seu papel de motivar o desarranjo na história. Do mesmo modo, Glória se mostra mais como uma pessoa inconveniente e superprotetora do que uma mãe desesperada que lutou anos contra o ninho vazio que foi o desaparecimento de seu filho.

Recepção de boas-vindas: a tensão da cena não aborda o amor de Pierre por sua mãe criminosa (Créditos: Divulgação)
Recepção de boas-vindas: a tensão da cena não aborda o amor de Pierre por sua mãe criminosa (Créditos: Divulgação)

Se o desamparo é uma marca importante e que até certo ponto se torna bastante interessante na película, Muylaert, tentando não tomar partido de nenhum de seus personagens, os deixa à deriva no fluxo dos acontecimentos. Certamente o filme possui boas atuações (com Matheus Nachtergaele compondo o elenco), bastante contidas mas que poderiam revelar mais sutilezas do que foram mostradas na tela. Também existe momentos interessantes, sobretudo acerca da sexualidade flexível de Pierre, mas são transgressões que de certo modo são previsíveis.

A impressão final que podemos ter com Mãe Só Há Uma é que tudo foi feito sob medida para se encaixar no esquema do discurso/roteiro, mas as motivações ficaram no ar, dando pouca margem para embarcarmos na vida e nos dilemas dos personagens.

Notas

Média