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Os caminhos incoerentes da origem da vida

Aniquilação(Annihilation)

Classificação: 16 anos

Estréia: 12 de Março de 2018

Genêro: Drama, Fantasia

Nacionalidade: EUA, Reino Unido

Duração: 1h 55min

Nota do crítico

Crítica

A tênue fronteira entre sci-fi e fantasia

Se os anais da história do cinema registram clássicos inesquecíveis da envergadura de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) ou Alien – O Oitavo Passageiro (1979), é pela destreza com que conceitos científicos são moldados à fantasia. Ambas as dimensões em sinergia tornam possível e crível a tarefa de refletir sobre a condição humana, sem deixarem de entreter ou surpreender por suas narrativas diferentes do convencional.

No entanto, quando o equilíbrio é quebrado e, por exemplo, o entretenimento se interpõe como prioridade de roteiro, o filme se perde, os conceitos se diluem, e se havia uma mensagem para comentar e transmitir, esta se torna tão rasa ao ponto de comprometer o conjunto.

A mais nova obra do diretor ainda iniciante Alex Garland, mais conhecido pelo oscarizado e debut de 2014 Ex_Machina: Instinto Artificial, novamente assume  o difícil encargo de fazer um filme contestador e existencial, tentando lançar luzes sobre o que realmente seria a vida, o que a caracterizaria, e o que a tornaria tão iminentemente humana. Diferente do seu primeiro filme, estruturado em torno da instigante premissa de questionar a realidade a partir da vida robótica, dessa vez pretendeu focar a vida biológica. Para tanto adaptou a primeira parte de uma trilogia literária escrita por Jeff Vandermeer.

Se ele foi bem sucedido mais uma vez, ou não, apontando para uma carreira nascente promissora, isto é matéria passível de ponderação. 

Viagem tarkovyskiana ao desconhecido

Para quem já viu Stalker (1979), do diretor russo Andrei Tarkovski, sobre as propriedades peculiares de uma zona atingida por um meteorito (desafiando as leis da física), e que enseja uma exploração em direção ao coração dos anseios humanos, certamente teve uma ótima oportunidade para refletir sobre o que é a existência. De modo análogo, inclusive encontrando diversas similaridades de enredo, também poderá atingir esse intento com Aniquilação.

Erroneamente tida, ao primeiro momento, como um roteiro cujos conceitos são difíceis de entender (talvez pelos três tempos narrativos intercalados; talvez pelos conceitos pretensamente científicos comentados; talvez pelas elipses narrativas), a história é mais fácil de ser concatenada do que parece. Na trama, com o retorno de Kane (Isaac) após um ano de missão em uma área inóspita, e o rápido processo de declínio fisiológico que apresenta, e após ser detida por uma organização desconhecida, sua esposa (Portman) se imbui do objetivo, junto com outras especialistas (antropóloga, psicóloga, linguista, etc) de ir até o local em busca de respostas.

O que se sabe a princípio é que um meteoro caiu na região e que uma estranha forma de vida tem tomado o local, mudando a geografia do lugar. E, ainda, que o “Brilho” (nome dado ao fenômeno) irradia uma luz colorida, que impede qualquer forma de comunicação eletrônica dentro desse espaço delimitado. Algo que Garland faz questão de mostrar sob sua lente naturalista, em longas tomadas em que parece querer ver tudo com o olho surpreso de um cientista, diante pela primeira vez de um fascinante objetivo de estudo (ainda que o CGI falho dê impressão forte de artificialidade).

Vida que surge pulsante e desconcertante.

Na área, fauna e flora reagem de maneira diferente do típico. Os animais, por exemplo, aparentemente com uma bizarra mutação, atacam o grupo, ameaçando-lhe a vida. Um flerte indevido com o gore, que confere o clima de “caça ao alien”, algo que estaria longe de ser o foco de um filme como esse. Além disso, as próprias personagens começam a ser afetadas, quando a própria constituição biológica começa a exibir sutis mudanças.

Uma das raras virtudes da história é mostrar os efeitos psicológicos do contexto sobre os personagens, afetando-lhes a percepção, e posteriormente, a própria sanidade, ao ponto de entrarem em franco processo de paranoia e psicose. Mas esse também não é o ponto chave do filme, apenas o caminho para levar até o lugar que realmente interessa, nesse caso, o que diferencia uma pessoa de uma forma de vida altamente similar ou, em outras palavras, uma cópia perfeita. E sobre como a evolução natural das espécies leva inevitavelmente a novas variações de vida, nem sempre entendidas, quase sempre rechaçadas.

Não deixa de ser uma ideia instigante, possivelmente melhor abordada nas páginas da obra literária. Provavelmente totalmente trabalhada ao longo dos três livros da série. Mas que no filme se apresenta irregular, flertando francamente com a fantasia a partir do segundo ato em diante, e que se vende como um falso estudo de personagens, uma vez que as relações entre pessoas terminam tão incipientes quanto começaram.

Isso sem contar a falta de zelo com a consistência da história. Motivações e comportamentos são jogados sem muito critério, como quando a personagem de Portman, somente uma professora de biologia, subitamente se voluntaria para uma missão de alto grau de risco, apenas por ter um longevo treinamento militar e a necessidade de entender a “doença” do marido. E quando as ações representam mudanças ou tomadas de decisões, que naturalmente apontariam para guinadas da história em outras obras, aqui soam como ações ingênuas e/ou mal encaixadas (por exemplo, a personagem de Leigh, ora inflexível em suas inexplicáveis intenções em concluir a missão, ora – repentinamente – ciente dos riscos, querendo fugir da situação).

Falta vigor e entrega à atuação de Natalie Portman, traços que em grande parte de sua filmografia estão presentes.

De boas intenções o céu está cheio

Alex Garland é um diretor que inova em sua abordagem fílmica, lenta, quase naturalista. Se propondo a trabalhar temas complexos, temáticas com tendência a acompanharem sua filmografia de forma constante, trilha o caminho dos grandes diretores do gênero. E talvez, por emular Stanley Kubrick, Ridley Scott, Tarkovski e outros, adicionando pitadas das obras destes diretores ao seu próprio filme, tenha criado um produto muito aquém de suas capacidades.

Resta esperar que encontre sua redenção, quem sabe assumindo sua própria identidade, cujas bases foram antevistas em seu filme antecessor.

Notas

Média