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Os Capacetes Brancos: anjos no inferno sírio

Os Capacetes Brancos(The White Helmets)

Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos

Estréia: 16 de Setembro de 2016

Genêro: Documentário

Nacionalidade: Irlanda / Inglaterra

Duração: 41 min

Nota do crítico

Crítica

Uma explosão impiedosa dá as “boas-vindas” na Síria. No instante seguinte ouvimos o efeito da insistente buzina para abrir passagem. O veículo servirá de ambulância enquanto de fato elas ainda não chegam. Deparamo-nos com a ruína de um prédio em meio a prédios que já são ruínas. As placas de concreto armado, com suas ferragens aparentes, são mostradas por uma câmera que trepida ao acompanhar os passos de um Capacete Branco, como são chamados os voluntários da organização da Defesa Civil da Síria que se arriscam para salvar vidas nos escombros da guerra.

Os Capacetes Brancos é também o título do comovente documentário produzido pela Netflix. Apesar de seus breves 41 minutos, o filme nos transporta para além dos noticiários que dedicam poucos segundos para essa tragédia e quase nada para essa importante ação civil que figurou entre os grandes concorrentes para o Prêmio Nobel da Paz de 2016 (mas que foi entregue para o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, pelo esforço ao criar o acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros das FARC).

Em uma sociedade saudável, os depoentes seriam um pedreiro, alfaiate, ferreiro. Cinco anos de guerra entre o Estado Islâmico, EUA e Rússia provocaram a morte de 400 mil sírios. O número seria maior se não fosse a dedicação dos Capacetes Brancos, esses ex-pedreiros, ex-alfaiates, ex-ferreiros que resgataram 58 mil pessoas desde 2013.

A guerra transforma a Síria em ruínas e profissionais comuns em heróis (Foto: Divulgação)
A guerra transforma a Síria em ruínas e profissionais comuns em heróis (Foto: Divulgação)

A guerra transformou suas vidas e eles tomaram a atitude de lutar pela vida ao invés do enfrentamento armado. O filme apresenta várias cenas fortes pelo irrefutável teor dramático da situação mas, ao mesmo tempo, consegue evitar imagens com sangue e danos mais agressivos das pessoas resgatadas. Essa opção de fazer um recorte intimista ao invés do sensacionalismo demonstra o foco do filme para com os Capacetes Brancos. Isso fica mais evidente por não haver especialistas ou qualquer outro representante “oficial” para comentar sobre o contexto da guerra. As vozes de Mohammed Farah, Khalid Farah e Abu Omar são apenas um recorte das cerca de 2.900 pessoas envolvidas com a Defesa Civil na Síria.

Uma coisa que chama a atenção no filme é o local que foram realizados os depoimentos: limpo, aparentemente tranquilo. Na metade do filme nós somos apresentados ao treinamento de um mês de alguns Capacetes Brancos na Turquia, país vizinho que tem uma rotina social radicalmente diferente. E mesmo por lá, distante da guerra, a guerra não sai de suas mentes. O massacre continua e o desejo de voltar e cumprir sua missão diária nos faz ficar frente a frente ao que podemos chamar de verdadeiros heróis. A ideia de coletividade é intensa no pensamento dos três protagonistas. A morte de um desconhecido ganha a mesma importância de um parente próximo.

O dramático resgate de Mahmoud contrasta com esta imagem tenra da filha de Khalid Farah, que não foi vítima direta da guerra (Foto: Divulgação)

Mesmo não tendo menor controle sob a guerra, os Capacetes Brancos têm a esperança de alcançar mais um milagre em meio a esta mancha negra que paira em sua pátria, provocando uma dor imensa – física e emocional. O desejo é resgatar mais um Mahmoud, criança recém-nascida encontrada coberta de poeira e quase esmagados pelos maciços pedaços de parede. Enquanto ainda não se vislumbra a paz tão almejada em sua terra, que eles cumpram aquilo que alimenta a sua fé e faz parte de seu lema: “salvar uma vida é salvar toda a humanidade”.

Notas

Média