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Os olhos de Freud sondam a psiquê

O Amante Duplo(Double Lover)

Classificação: 18 anos

Estréia: 07 de Junho de 2018

Genêro: Drama, Thriller

Nacionalidade: França, Bélgica

Duração: 1h 47min

Nota do crítico

Crítica

Pastiche perturbador à francesa

Se qualquer terapeuta for perguntado sobre as satisfações e infortúnios do seu ofício, certamente comentará sobre as motivações (ou a falta), resistências e sentimentos que são depositados pelo paciente sobre o terapeuta. O cineasta François Ozon parece muito ciente disso ao adaptar o texto da escritora Joyce Carol Oates, conduzindo sua narrativa sem isentar seus personagens de suas limitações morais e psíquicas, mesmo que isso custe uma parcela significativa de realismo.

Na trama, Chloé (Marine Vacth), uma mulher que se sente avaliada e julgada por todos (supostamente algo plantado e enraizado desde as vivências familiares) começa a frequentar a terapia, conduzida pelo psicanalista Paul Meyer (Jérémie Renier). Quando ambos começam a se envolver amorosamente, os segredos dele começam a testar as bases de sua frágil constituição emocional, em uma história que descamba para o horror escatológico.

Fica claro a partir dessa premissa que não há necessariamente um compromisso com a realidade. E se isso é verdade, sobra espaço para se explorar as piores perversões das pessoas, superestimando-as quando necessário. Talvez por isso o filme aparente ser a mistura inquietante das criações de tantos artistas diferentes, de Brian De Palma à David Lynch, e até do escritor de horror Stephen King.

Do primeiro, pela exatidão e experimentalismo visual, a serem facilmente discerníveis no uso inteligente de tela dividida, e nas constantes obsessões voyeurísticas (gato, as pessoas no museu, os espelhos. Tudo parece vigiar e ser vigiado). Além, é claro, do roteiro que faz questão de brincar com a sexualidade, colocando seus frágeis personagens diante de dilemas que cedem espaço ao desejo.

Apesar do plot twist previsível, o roteiro mantém o clima bizarro de perversão até o fim. E não seria isso muito parecido com as entranhas da natureza humana?

Também é possível estabelecer paralelos com a filmografia de David Lynch, não só pelo clima onírico reinante (o que é pesadelo e o que é realidade?), mas também pelo modo como a indefinição da identidade (quem é você, quem é o outro e quem sou eu?) mexe com as percepções, inclusive do público. Daí também certa semelhança com o livro A Metade Negra de King, que se apropria de antigas lendas alemãs sobre doppelgangers para construir uma perturbadora e sangrenta análise do lado sádico e reprimido de todos.

Todo esse mix para, no final, sermos confrontados com os diferentes lados da psiquê, todos maus em essência, todos bons, todos carregando alguma espécie de trauma ou vivência passada não de todo superada. Por isso, os espelhos ostensivamente colocados diante dos personagens revelam bem mais do que apenas reflexos: sondam a multiplicidade de facetas, nossos anseios e expectativas deturpadas.

Esta certamente é uma obra que será aclamada por parte do público (provavelmente pelo esmero estético – por exemplo, algumas brincadeiras visuais e simbólicas de Ozon, como a genial cena de confrontação e inversão desnuda entre terapeuta e paciente – e homenagens cinéfilas), e execrada pela outra. Afinal, não é um filme que se furta de chocar com certas sequências tidas como “inimagináveis”.

Mais do que um elemento que caracteriza o suspense erótico, mostrar obsessivamente os corpos em sua carnalidade revela camadas que os personagens nem sempre estão dispostos a explorar.

O Amante Duplo faz parte da programação do Festival Varilux de Cinema Francês 2018. Em Natal está sendo exibido no Cinépolis Natal Shopping, e será reprisado na segunda-Feira, dia 11/06, na sessão das 17h, e na Quinta-Feira, dia 14/06, às 20h. Vale a pena conferir!

Notas

Média