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Os ponteiros do relógio não voltam mais

A Melhor Escolha(Last Flag Flying)

Classificação: 12 anos

Estréia: 22 de Março de 2018

Genêro: Comédia, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 05min

Nota do crítico

Crítica

Clássico da Nova Hollywood revisitado

A Guerra do Vietnã estava prestes a terminar quando certo diretor excêntrico, Hal Ashby (Ensina-me a Viver, Muito Além do Jardim), trouxe à luz A Última Missão. Uma obra sincronizada com o contexto daquela época, trazendo um espírito claro de contestação, mesmo preferindo explorar com bom humor situações tão corriqueiras quanto um papo entre amigos.

Incrível a química entre Jack Nicholson, Randy Quaid e Otis Young, os atores que deram vida inicialmente ao trio de marinheiros, dois deles cumprindo com a incumbência de levar o terceiro (Quaid) para a prisão. Crítica sutil à guerra do Vietnã em forma de comédia leve, sobre amizades improváveis e aproveitar bons momentos juntos. Culminando com um final melancólico para lembrar que, no final das contas, é difícil escapar das amarras do sistema.

A Última Missão (1973), de Hal Ashby. Um dos clássicos de Contracultura da Nova Hollywood.

Quase 45 anos se passaram, e o flagelo das guerras continua assolando as nações. Muda-se o país e os supostos inimigos da “liberdade americana”. As chagas abertas e o eterno luto pelos que se foram são os mesmos.

Richard Linklater aproveita a atualidade do tema para prosseguir com a história dos três personagens (ou pelo menos, dando a entender que poderiam ser eles), avançando anos em suas vidas para mostrar o peso das decisões sobre diferentes trajetórias. Assim nasce A Melhor Escolha (2017), uma obra para se levar na cabeça – e no coração – quando a projeção se encerra.

Richard Linklater e o estudo do tempo

Os eventos de A Melhor Escolha se situam em 2003, em pleno ápice da Guerra do Iraque, pós-atentados de 11 de Setembro de 2001. Quando os esforços americanos se voltavam para derrubar potenciais perigos terroristas à supremacia do país, e as forças militares foram, mais uma vez, colocadas em linha de frente com as “ameaças”.

Larry “Doc” Shepherd perdeu o filho em uma dessas empreitadas, e precisa velá-lo, em meio à culpa e um certo receio de não ter sido o melhor modelo de pai para ele, afinal, foi mantido preso algum tempo pela deserção de outrora. Os tempos são outros, mas a onda de ufanismo e patriotismo a fazer a cabeça dos jovens continuou a arrebanhar milhares deles (incluindo seu filho) a erguerem a bandeira da liberdade em solos distante da terra natal.

O que Linklater faz, sem deixar que a balança penda de forma panfletária para nenhum lado, é traçar um drama de reconciliação, repleto de momentos líricos de resgate de velhas lembranças, e lamentações pelos caminhos tomados. Nesse sentido, cada nova situação interposta no caminho do grupo, desde a burocracia militar à falsa propaganda nacionalista, a chamar de heroísmo todo autossacrifício estúpido perpetrado, é apresentada com sensibilidade, sem esquecer o que representam. É a crítica mordaz e discreta que se mostra por si só.

Novamente as cicatrizes de (uma nova) guerra os reúnem. Tempo de passar a limpo as escolhas feitas, para o bem ou para o mal.

Tudo isso através daqueles diálogos espontâneos que só Linklater sabe fazer. Os atores conseguem impingir uma autenticidade ímpar às interações, em cada tirada chistosa ou crise de risos dos personagens, com um humor que não faz questão de ser pastelão, posto que traga um espírito muito mais de nostalgia e tristeza do que de qualquer outra coisa.

Fishburne, Carrell e Cranston, principalmente este último (emulando Nicholson em cada gesticulação ou trejeito frenético – a insubordinação em pessoa!), atuam divinamente. Os melhores de sua geração, mostrando todo o talento de que são capazes, sem deixar de honrar os intérpretes predecessores de seus personagens.

Em um dos momentos mais pungentes do filme, um “mea culpa” dos personagens em relação aos acontecimentos do primeiro filme.

Cabe uma última consideração: o quanto a escolha do diretor foi acertada. Já é bem conhecida a quase obsessão de Linklater pelo tempo, seja mostrando o desenrolar de um relacionamento amoroso feito de encontros e desencontros (ao longo de um período de dezoito anos), na trilogia Antes do Amanhecer (1995-2013), ou preferindo estudar em tempo real o desenvolvimento físico e psicológico de uma criança (ao longo de 12 anos) em Boyhood: Da Infância à Juventude (2014).

É como se o diretor estivesse interessado em refletir sobre o caráter inexorável e imponderável do tempo, e o imperativo que exerce sobre a vida das pessoas. Daí fica fácil entender o resultado em A Melhor Escolha, um filme extremamente emocional, melancólico. Um road movie de reconciliação com o passado e uma reflexão sobre o tempo, escolhas e a estupidez insensata das guerras.

Notas

Média