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Sobre homens e monstros

Pacto dos lobos(Le pacte des loupes)

Classificação: Classificação indicativa 12 anos

Estréia: 14/06/2002

Genêro: Ficção histórica, drama

Nacionalidade: França

Duração: 2h22m

Nota do crítico

Crítica

Por que alguém juntaria índios lutadores de kung-fu, nobres conspiradores e ambientes de serial killers para contar a misteriosa história de um monstro que assolou a França no século dezoito? Se fosse para fazer um relato histórico seria impossível, mas cinema dispensa rigor acadêmico, e pode usar a licença poética que os autores acharem necessária para tornar o relato interessante.

Foi assim que o diretor Christophe Gans criou “O Pacto dos Lobos” (“Le pacte des loups”, FRA, 2001), um filme com muita ação e aventura, um bonito elenco, locações fantásticas e uma história intrigante, sobre um mistério real que até hoje não foi totalmente esclarecido.

Na França de 1764, quando a realeza ainda estava firme e forte, a notícia de uma Besta assassina, que matava e mutilava aldeões, principalmente mulheres e crianças, levou o rei Luís XV a enviar um emissário especial, o Cavaleiro Grégoire de Fronsac (Samuel Le Bihan). Este nobre, acompanhado do misterioso Mani (Mark Dacascos), um índio Mohawk, chegou a Gévaudan, uma aldeia no interior sul do país, onde estavam ocorrendo os ataques.

Fronsac era um homem de muitas qualificações: jardineiro, naturalista, curandeiro, taxidermista e intelectual, entre outras coisas úteis para a França do século 18. Sua missão era capturar a misteriosa fera, que para uns era um lobo, para outros um monstro, ou talvez o próprio demônio. Fosse o que fosse, a Besta parecia conseguir sempre fugir, sem nem ao menos ser identificada pelos poucos sobreviventes.

Lançando-se à caça do misterioso animal, o Cavaleiro conhece notáveis personagens locais, como o rancoroso Jean-François (Vicente Cassel), que perdera um braço na África, sua bela irmã, Marianne (Emilie Dequenne), e a sensual prostituta Sylvia (Mônica Bellucci). Aos poucos, vai descobrindo que existe uma rede de intrigas que se estende desde a Roma papal até a corte da França, com epicentro na pequena Gévaudan.

Pouco se sabe até hoje sobre a Besta de Gévaudan, mesmo no resto da França. Mas, o monstro realmente existiu, e fez mais de cem vítimas entre 1764 e 1767, nas regiões rurais de Auvergne e Dorgogne. Tudo isto está documentado nos livros oficiais das prefeituras destes lugares, com relatos das testemunhas sobreviventes – todas idôneas, como padres, juízes e deputados.

Quando o terror se intensificou, as autoridades locais pediram ajuda à Corte e o rei Luís XV se interessou pessoalmente pelo caso, mandando homens de seu exército e oferecendo vultosas recompensas para quem a capturasse. Foram utilizados os mais variados métodos de captura, com caçadores experientes, armadilhas, iscas envenenadas, mas sem resultados práticos.

Em quatro ocasiões, diferentes animais de grande porte – lobos e hienas – foram mortos, mas em pouco tempo novas vítimas apareciam. O último ataque observado foi em junho de 1767, e depois nada mais ocorreu, sem explicação coerente. Até hoje, mais de duzentos anos depois, não há uma explicação definitiva sobre o que foi a Besta de Gévaudan.

Se não há uma explicação comprovada, só restam as especulações, e por que não fazê-lo em grande estilo, como ousou o diretor Christophe Gans? Com roteiro de Stéphane Cabel, Gans apresentou a sua versão dos fatos, com muita ação e aventura, juntando o estilo videogame com um enredo bem amarrado, mostrando um pouco do poderoso jogo de intrigas e interesses que era comum na época retratada. Se non è vero, è ben raccontato, como dizem os italianos…

O diretor não esconde a sua afinidade pelos mangás, ou quadrinhos japoneses, que já lhe renderam um filme anterior, muito cultuado pelos fãs: “O Combate: Lágrimas do Guerreiro” (“Crying freeman”, FRA,1995), estrelado pelo mesmo Mark Dacascos. As sequencias alucinantes de ação alternam-se com os relacionamentos tensos dos personagens, numa recriação bem feita de cenários e figurinos.

Mas, realismo histórico fica melhor em documentários, não em filmes de ficção. As sequencias de luta em “O Pacto dos Lobos” também são antológicas, no melhor estilo Hong Kong. A apresentação dos personagens principais é surreal, com Mani distribuindo porradas debaixo de uma chuva torrencial, numa das coreografias marciais mais bonitas do cinema.

O diretor usa e abusa de determinados efeitos, como a alteração da velocidade da imagem durante as cenas de ação, e na montagem apresenta as lutas corpo a corpo em três planos (geral, golpe, reação), numa velocidade tal que quase só se veem as sombras em movimento. O fato de ter utilizado câmeras digitais facilitou a inserção dos efeitos especiais.

O entusiasmo com que “O Pacto dos Lobos” foi recebido na França acabou prejudicando-o no mercado externo, que esperava um filme épico “sério”. Mas, como um produto de entretenimento adequado ao público atual, o filme consegue ser mais do que uma caça-ao-monstro-com-artes-marciais.

Com as suas duas horas e vinte de duração, o filme mostra um fato histórico inusitado, entremeado por uma aventura capa-e-espada, tendo como pano de fundo o embrião da futura revolução francesa. Com uma linguagem dinâmica, o filme prende a atenção e surpreende até o fim, em meio às reviravoltas do enredo.

O elenco é um dos pontos fortes do filme. O misterioso índio faixa-preta é vivido por Mark Dacascos, que foi realmente campeão europeu de kung-fu no início dos anos 80. Ele abandonou as competições para fazer filmes como “Only the Strong”, “Double Dragon” e “A Ilha do Doutor Moreau”, além do já citado “O Combate: Lágrimas de um guerreiro”. Na televisão, assumiu o papel título do seriado “O Corvo”, originado a partir de um filme estrelado pelo filho de Bruce Lee, Brandon.

A cortesã Sylvia é vivida por bela Mônica Bellucci, que ficou famosa ao estrelar “Malena”, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2001. Mônica, que foi uma das vampiras do “Drácula” de Coppola, e esteve nas duas sequencias de “Matrix”. Seu então marido na vida real, Vicente Cassel, faz outro importante personagem de “O Pacto dos Lobos”, o desajustado Jean-François de Morangias.

O ponto negativo do filme já foi na fase de home video, onde a distribuidora optou por uma edição de padrão inferior ao que a produção certamente merecia. A edição em DVD, da Europa Filmes, limitou-se a uma edição com tela cheia e poucos extras. Posteriormente foi lançado o Blu-Ray já com  o formato de tela em widescreen anamórfico. Como extras, Trailer, Teaser e TV Spot, Entrevistas, Making Of, Bastidores, O Monstro, Notas sobre Elenco e Diretor.

O making of é legendado em português, tem nove minutos de duração, e dá uma visão geral do filme. Bastidores e entrevistas são trechos do making of, sem nenhuma novidade. Na edição americana da Universal, além do filme vir em Widescreen anamórfico, vem também as cenas deletadas, trailers e notas de produção.

Apesar das deficiências da edição em DVD, “O Pacto dos Lobos” é diversão garantida para os amantes de filmes de ação, além de dar mais um lampejo do que foi a turbulenta Europa pré-Revolução Francesa. Assista e tire as suas próprias conclusões.

Notas

Média