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Passo a passo adentra-se no passado

A última tarde(La última tarde)

Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos

Genêro: Drama

Nacionalidade: Peru

Duração: 1h 30min

Nota do crítico

Crítica

O longa peruano “A Última Tarde” (2014) é um daqueles filmes que cruzam várias camadas narrativas que se avolumam e tencionam as relações dos personagens no decorrer da trama. O roteiro e direção assinados por Joel Calero possui a virtude de se arriscar ao se apoiar em sua quase totalidade nos diálogos dos protagonistas Laura e Ramón, interpretados respectivamente pela magnética Katarina D’Onofrio e o introspectivo Lucho Cáceres.

A premissa é simples: em um fórum na cidade de Lima, Laura e Ramón decidem assinar os papéis para o divórcio. As roupas e a aparência de cada um são os primeiros elementos de estranheza e curiosidade: como essas vidas haviam se cruzado? Ela aparenta ser uma burguesa e ele um operário. Fazia 19 anos em que eles não se viam e por um equívoco na assinatura dos documentos, ambos teriam que passar uma tarde aguardando o retorno do juiz.

Diante do tempo desta espera, Ramón, com desejo de ver o mar já que atualmente mora nas regiões andinas de Cusco, decide sair a pé em direção à praia e Laura lhe faz companhia. Dá-se assim o início dos vários momentos de diálogos em plano-sequência, conversas ininterruptas a cada passo dado pelos personagens – e algumas informações de teor surpreendente que revigoram o fôlego da narrativa.

A cada passo a vida e os sentimentos de Laura (Katarina D’Onofrio) e Ramón (Lucho Cáceres) são revelados em diálogos surpreendentes (foto: divulgação / Cine Ceará)

As vidas após a separação são reveladas e as banalidades reforçam a personalidade de cada um até que aos poucos um passado dramático se descortina e não poupa comentários da situação sócio-política do Peru de duas décadas atrás. Tudo captado pela câmera que acompanha o ritmo lento dos passos dos protagonistas sem perder o foco da montanha russa de mágoas e outros sentimentos expressos em seus semblantes.

O filme não se limita a esse passeio demorado em Lima, o que demonstra que está sempre se reinventando na medida que a fórmula começa a se desgastar. Vale salientar que em nenhum minuto identifiquei alguma situação gratuita na história. Mesmo um comentário banal do juiz gera para o público um misto de ironia e tensão diante de fatos já apresentados anteriormente pelos protagonistas.

“A Última Tarde” é uma aula de roteiro que entrega muito mais do que inicialmente oferece, confiando nas atuações bastante precisas dos seus intérpretes e da destreza técnica em operar uma câmera em movimento.

Notas

Média