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Quando a dor explode em fúria

Três Anúncios Para Um Crime(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Classificação: 16 anos

Estréia: 15 de fevereiro de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 55min

Nota do crítico


Quando o assassinato de sua filha permanece sem solução, uma mãe decide cobrar uma explicação da polícia perguntando em três outdoors quando haverá uma prisão pelo crime. 


Crítica

Os primeiros minutos de Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) são de uma tristeza profunda. A protagonista, Mildred Hayes (Frances McDormand), observa o local onde sua filha foi assassinada: uma rodovia pouco movimentada com três outdoors dilapidados. Na trilha sonora ecoa “Tis The Last Rose Of Summer“, uma música sobre a dor de enfrentar a ausência de uma pessoa amada.

De repente, os olhos de Mildred se acendem com uma ideia e a trilha muda rapidamente para uma composição que lembra mais um faroeste. A personagem não vai apenas lamentar a tragédia de perder uma filha, ela transforma seu sofrimento em uma atitude que abala a cidade de Ebbing.

Em Três Anúncios, a resposta para a tristeza é quase sempre uma ação, e essas ações são, na maioria das vezes, explosivas. O roteiro assinado por Martin McDonagh (que também dirige o filme) é competente em vários níveis, na organização dos conflitos, na construção dos personagens e na progressão da história.

A tragédia de uma mãe se transforma em uma luta tempestuosa por respostas

São poucos os momentos previsíveis durante o longa, e cada personagem existe como uma pessoa completa, com uma trajetória própria tão intrigante quanto a da protagonista, e também repleta de drama. Além de Mildred, uma das figuras mais interessantes no filme é o policial Dixon (Sam Rockwel), cujo comportamento grotesco, ao invés de simplesmente gerar repulsa, deixa o espectador cada vez mais curioso para compreendê-lo.

Frances McDormand e Sam Rockwel abocanham esses papéis suculentos com vontade, e já é dado como certo que ganhem Oscars por suas atuações. McDormand incorpora toda a força e intensidade dos sentimentos de Mildred com uma honestidade comovente. Ela é determinada, rude, devastadora em sua franqueza e ao mesmo tempo suave, tornando impossível não admirar a personagem e não compartilhar um pouco do seu sofrimento na tentativa de manter ao menos a memória de sua filha viva.

Entre Mildred e Dixon está a figura do xerife Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, completando a trinca das principais desempenhos no longa. Harrelson (também indicado a um Oscar) pode passar despercebido entre os personagens excêntricos, mas é ele quem acrescenta uma alguma moderação em uma cidade aparentemente desgovernada.

Personagens complexos e atuações estupendas são os destaques do filme

Nenhum personagem é completamente bom ou mal – alguns deles cometem erros colossais – mas sua humanidade é tão genuína, sua complexidade tão real, que o espectador é obrigado a pensar neles como pessoas dignas de compaixão.

Embora Três Anúncios percorra cenários de tragédia e violência, é um filme capaz de equilibrar toda essa tensão com momentos cômicos que surgem naturalmente nas cenas, seja através de diálogos mordazes (um ótimo exemplo é a cena da visita do padre) ou pela total ausência de censura nas falas dos personagens.

Ebbing não é uma cidade real, mas lamentavelmente outdoors como os de Mildred existem nos Estados Unidos e serviram de inspiração para a história. Não é a toa que tudo no longa parece autêntico, do sofrimento da família à violência na pequena cidade. Mesmo assim, o filme não se entrega ao pessimismo. Pelo contrário, parece dizer que precisamos, e muito, nos ajudar a enfrentar tanta dor.

Notas

Média