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Quando os jovens se tornam adultos

O Livro de Henry(The Book of Henry)

Classificação: a definir

Estréia: a definir

Genêro: Drama, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 45min

Nota do crítico

Crítica

Os meandros imprevisíveis da infância

Os anos dourados da infância: quando a inocência é uma constante, e as preocupações corriqueiras do mundo adulto não têm (ou não deveriam ter) vez. Quando as brincadeiras, tão divertidas, por mais simples que sejam, ocupam a maior parte do tempo. E cada momento é uma nova descoberta, pequenos insights a trazer maravilhosas descobertas.

E se nem tudo é alegria e novidade, é porque nem sempre as crianças estão isentas de sustentarem os problemas de seus pais (ou outras pessoas do entorno). Seja nas conversas entrecortadas e sussurradas, escutadas ao acaso; no semblante carregado dos adultos; ou até no modo como estes se expressam com elas, explosivos ou poucos atentos às necessidades prementes de carinho e atenção.

É sobre esse jogo de papeis entre pais e filhos, e as responsabilidades resultantes, que trata O Livro de Henry (2017), filme pouco comentado e ainda inédito do Brasil. Uma obra que usa a lente nada convencional do exagero para discutir a tomada de consciência do papel de condutor familiar que os genitores possuem, além da influência que exercem, modelos de conduta a lançar as bases de quem os pequenos serão dali a alguns anos, incluindo a formação da personalidade e o modo como interagem com o mundo.

Watts, Lieberher e Tremblay. A dinâmica entre os três atores enquanto família funciona muito bem.

Essa subversão a partir da hipérbole é feita a partir do momento que Henry (Jaeden Lieberher, mais conhecido pelo debut recente It – A Coisa), um garoto com altas habilidades intelectuais, é colocado como centro funcional da família (em parte aproveitando seu potencial cognitivo, em parte por conveniência materna). A mãe (Naomi Watts), garçonete e única responsável por Henry e seu pequeno irmão, recebe toda a base moral e emocional que seria esperada em uma inversão (natural) de atribuições, além de assessoria contábil e financeira, já que ele administra as aplicações dela em fundos monetários de investimento.

Até então, uma família excêntrica e paradoxalmente feliz. Não fosse por algumas reviravoltas (incluindo um caso de abuso infantil na casa ao lado) a reservarem mudanças estruturais em toda a forma como lidam com os problemas. Sem aprofundar muito, sob o risco de se apontar spoilers, digamos que a mãe precisará aprender a ser mãe, e o irmão Peter (Jacob Tremblay, o talentosíssimo ator infantil que emocionou o mundo com O Quarto de Jack, três anos atrás) a ser independente, lidando sozinho, dentre outras questões, com o bullying que sofre diariamente.

A irmandade, um dos elementos mais fortes (para o bem ou para o mal) na infância.

O inesperado suspense

Após a guinada de roteiro, o filme bonitinho com boas pinceladas de interação familiar, se transforma, o que pode desagradar alguns, e ser visto por outros como um ousado diferencial. É o momento-chave em que a personagem de Watts precisará aprender a se virar sem as habilidades do filho prodígio.

Outra coisa que chama a atenção é que, ao fazer isso, assume a missão de desmascarar o vizinho abusador, Glenn Sickleman, vivido pelo intimidador Dean Norris. Com todas as pistas deixadas por Henry em seu livro de capa vermelha, ela se guiará, mesmo que implique ela defrontar uma pequena trama enredada envolvendo mais pessoas, que acobertam Glenn.

A missão em questão envolve assassiná-lo (!), com o cuidado de não deixar uma pista sequer. Um plano cuidadosamente arquitetado, uma vez que as autoridades ao redor, passivas, se mantêm neutras diante das denúncias, anônimas ou não, de Henry. Tudo isso com uma atmosfera que beira a tensão subjacente dos melhores filmes de Alfred Hitchcock.

A mãe em processo de superação, confrontando seu antagonista. Nem todo exagero é defeito!

Por trás da aparente sugestão de suspense de thriller, na verdade, parte de uma metáfora bem ancorada no imaginário infantil, mais uma vez a tomada de consciência sobre a responsabilidade adulta, conforme a narrativa encaminhará a personagem para um desenlace. E isso é o mais importante no filme, a reflexão sobre quem realmente é capaz de tomar decisões e optar por caminhos em um grupo familiar. Por mais que um garoto de 11 anos seja capaz de se expressar de forma madura, ele ainda continuará sendo apenas um garoto. 

A inexpressiva repercussão

Com somente 20% de aprovação da crítica no site especializado Rotten Tomatoes, e uma pífia bilheteria de pouco mais de quatro milhões de dólares nos cinemas americanos, O Livro de Henry apresentou uma repercussão decepcionante. Acabou não importando muito o excelente elenco ou todo o faturamento e sucesso que circundaram o último trabalho do diretor Colin Trevorrow, de Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015).

Vários motivos podem ter concorrido para isso. O tema pesado sobre abuso, ou quem sabe, a mudança de tom que ocorre na metade do filme. De uma maneira ou de outra, esnobado dessa forma, infelizmente a obra perde no boca a boca, trazendo em torno de si uma fama que pode afetar as expectativas e percepção de quem ainda o verá.

Por outro lado, se houver um adequado distanciamento, é possível que se perceba a sutileza de uma obra que traz questões tão pertinentes ao âmbito familiar. E que faz valer a conferida.

Notas

Média