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Spielberg volta a ser criança

Jogador Nº 1(Ready Player One)

Classificação: 12 anos

Estréia: 29 de Março de 2018

Genêro: Ação, Aventura, Sci-Fi

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 20min

Nota do crítico

Crítica

O retorno ao passado também é uma atualização

Indo de encontro ao que a grande maioria das críticas tem alardeado sobre Spielberg ter voltado à velha forma, isto é, a ser o diretor moleque dos anos 80 (no bom sentido), esta começa seguindo uma linha de raciocínio diametralmente oposta. Em Jogador Nº 1 (2018) Spielberg finalmente entendeu quem é o público do século XXI, investindo em escolhas que divergem um pouco dentro da sua filmografia, em geral.

E, com isso, não se quer dizer que ele não usou da nostalgia e de elementos familiares como ferramentas em prol de uma construção narrativa. Negá-lo seria ignorar a essência da obra, e obviamente, do diretor. Mas aqui é imprescindível afirmar que a tarefa (não para todos os cineastas) de mobilizar fãs de literatura para jovens adultos, saudosistas de uma época que já se foi, e ainda, a geração hiperativa, que se pauta no divertimento a partir de múltiplos e intensos estímulos visuais simultâneos, foi alcançada com o devido êxito.

Nesse sentido, o DNA constituído por todos aqueles elementos que configuraram o sucesso de Steven Spielberg em sucessos como Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T. – O Extraterrestre (1982), a saber, o tom aventuresco, cargas dramáticas depositadas sobre núcleos familiares jogando com os sentimentos do público, e a magia que é suscitada a partir do desconhecido – estão todos lá em Jogador Nº 1. Porém, não são por si só aspectos centrais ao filme. Na realidade, Ready Player One é um verdadeiro tratado sobre cultura pop. 

Quem você quer ser na cultura pop?

Em uma sociedade futurística ainda repleta de disparidades econômicas, as pessoas buscam compensar os dissabores e derrotas da vida a partir do jogo de realidade virtual, OASIS. Uma plataforma de realidade estendida em que todos passam a maior parte do tempo com seus avatares, com amplas possibilidades de viver as mais fantásticas aventuras ao dispor.

Tye Sheridan é Wade Watts, um rapaz comum que adentra no jogo com o objetivo, assim como os demais, de conseguir encontrar as três chaves capazes de conferir poder absoluto sobre OASIS. Chaves espalhadas e relacionadas aos mais diversos cenários, enredos e personagens criados em filmes, livros e HQs.

Tye Sheridan sintetiza o arquétipo de herói. Alguém que vai crescendo em amadurecimento à medida que os desafios transcorrem.

Ao longo do caminho, e com a ajuda de um grupo inusitado de jogadores (Art3mis, seu melhor amigo Aech, e os irmãos Daito e Shoto), deverá se deparar com o passado misterioso de James Halliday (Mark Rylance), defrontar Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), o indivíduo poderoso por trás da Innovative Online Industries (IOI), corporação que quer o controle absoluto de OASIS, e ainda tomar parte em uma revolução com pretensões de mudar o status de poder no mundo real.

Mark Rylance, colaborador agora constante de Spielberg, representa a cultura pop em seu infinito conjunto de ícones.

Baseado no livro homônimo de Ernest Cline, o filme é respeitoso e mantém a mola mestra do enredo da obra original. E, indo mais além, atualiza algumas referências, não se restringindo aos anos 80, o que abre margem para amplas explorações em outros tipos de mídias, como os games atuais, altamente visuais e baseados em enredos complexos (Duke Nukem, Lara Croft Tomb Raider e personagens de Mortal Kombat são alguns do que surgem em cena).

Por vezes, as referências se integram organicamente ao enredo, mas na maior parte do tempo surgem em aparições relâmpago, tão rápidas que podem passar desapercebidas até para os mais familiarizados com os personagens. É algo que pode frustrar alguns, pois as melhores situações apresentadas pelo filme estão apoiadas nas referências duradouras, quando os personagens tem que literalmente adentrar dentro de uma história. Talvez tenha faltado um pouco mais disso no longa.

Assim, fãs de mangás e animes, e cultura nipônica em geral, ficarão mais do que satisfeitos, eufóricos, com tais inserções. Quem curte os livros de horror de Stephen King possivelmente entrará em êxtase. Quem aprecia ouvir a música dançante do Bee Gees se divertirá bastante com uma determinada sequência.

E se isso não for suficiente, ainda terão algumas participações especiais que ficam entre rápidas e engraçadas, fazendo valer o investimento no ingresso de cinema: Chucky, Goro, Batverso, King Kong e Atari são apenas algumas destas. Por essas e por outras, Jogador N° 1 se revela um divertimento decente.

Para quem espera batalhas de escala épica, o filme não deixa nada a dever.

Spielberg finalmente perdoado

O diretor de clássicos juvenis como Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981) retorna à leveza das matinês, dessa vez aliado ao visual estonteante dos grandes blockbusters do século 21. Não que suas obras anteriores não fossem iminentemente visuais e ancoradas em efeitos especiais, longe disso. Aqui, indiscutivelmente, todos os limites possíveis são ultrapassados.

Isso sem esquecer o clima de amizade reinante entre os personagens, algo que apela à identificação infanto-juvenil (e às comédias adolescentes oitentistas), referências que imergem o público naquela sensação gostosa de nostalgia da infância, além de conseguir provocar aqueles grandes “oh”, que há muito não eram estimulados por um filme lançado nos cinemas. E só por nos fazer sentir dessa forma, o veterano diretor merece todos os perdões possíveis por seus últimos (e chatos) trabalhos.

Notas

Média