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Todos os cães precisam de amor

Ilha dos Cachorros(Isle of Dogs)

Classificação: 12 anos

Estréia: 19 de Julho de 2018

Genêro: Animação, Aventura

Nacionalidade: Alemanha, EUA

Duração: 1h 41min

Nota do crítico

Crítica

A maioria das histórias envolvendo cães costuma apresentar elementos emocionais inconfundíveis. Afinal, quem nunca deixou de sorrir a um simpático abanar de rabo, ou a um olhar quase hipnotizado (e hipnotizante), destes brincalhões e fantásticos bichinhos?

Wes Anderson, o diretor com fama de realizar os filmes mais “bonitinhos” dos últimos anos (incluindo O Grande Hotel Budapeste, O Fantástico Sr. Raposo e Os Excêntricos Tenenbaums), abraça o encargo de levar às telas em forma de animação stop motion um roteiro que se destaca pelo mix de coisas bem diferentes entre si, pelo menos na superfície. Temos desde cães exilados em uma ilha de lixo, a uma trama com ares políticos e conspiratórios de expurgação de todos eles, passando por um garoto e a missão tenaz de resgatar o próprio pet, e o melhor da ambientação e cultura nipônica.

A obsessão pela simetria em cada imagem.

Deriva daí um produto tipicamente “wesandersiano”, com todos os elementos que o consagraram: do início ao fim, planos com elementos que mantém simetria em cena; preferência pelos tons pastéis no visual; temas simpáticos acompanhando a jornada apresentada (belíssima a canção I Won’t Hurt You!); personagens deslocados, verdadeiros outsiders sem rumo e sem casa; flashbacks incidentais, narrados de maneira tragicômica; e claro, como não poderia deixar de ser, a participação do onipresente Bill Murray, a voz por trás do pequeno Boss.

E se tudo isso ainda não for suficiente para criar um mínimo de empatia ou ao menos interesse, ainda temos uma narrativa reverente, que não deixa referenciar a lenda cinematográfica dos filmes de samurai, Akira Kurosawa, e o mago das animações do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki. Um prato cheio para quem curte os ícones, valores de honra e dignidade, e todo o tradicionalismo da cultura oriental.

Talvez desagrade a alguns, ou até mesmo crie certo distanciamento afetivo o fato de a narrativa ser tão minudenciada, com um voice over hiper didático e o excesso de letreiros explicativos, ou até mesmo a grande quantidade de personagens (apesar de que, verdade seja dita, de Bryan Cranston a Harvey Keitel, é divertidíssimo “caçar” as vozes do elenco estrelado). No entanto, parecem pontos efêmeros demais para se constituírem como demérito à animação, salvo se não for realmente palatável o estilo do diretor para quem tiver se desagradado com o que assistiu.

Porque se tem uma coisa que essa história tem potencial, é de envolver e enternecer, seja por evocar uma realidade muito próxima daquela que enfrentamos cotidianamente em nossas vidas, seja pela melancolia que se esconde por trás da aparente ludicidade da história. Parando para pensar nisso, será que em algum momento não nos tornamos os personagens humanos retratados? Será que já não estamos vivendo no Japão distópico de Anderson?

Os melhores amigos do homem, sozinhos, esquecidos. Prestes a reencontrarem sua dignidade perdida.

Notas

Média