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O jogo que acabou três vezes

Três Segundos(Dvizhenie vverkh)

Classificação: Classificação indicativa 12 anos

Estréia: 28/12/2017

Genêro: Drama, biografia

Nacionalidade: Rússia

Duração: 2h13m

Nota do crítico

Crítica

A única coisa boa da idade é que temos a oportunidade – nem sempre aproveitada – de ser testemunha de momentos históricos. Um destes momentos, que tive a chance de assistir pela TV foi a final de basquete dos jogos olímpicos de Munique, em 1972. Esse evento, tão interessante e único, foi tema de um belo filme russo, “Três Segundos” (RUS, “Dvizhenie vverkh”, 2017), feito quase meio século depois.

Esta Olimpíada foi uma das mais tumultuadas da História. Em plena Guerra Fria, era uma das poucas oportunidades para soviéticos e assemelhados desafiarem os americanos e demais países ocidentais sem envolver armas e exércitos.

Contudo, nessa mesma época fervilhavam muitos movimentos das mais diferentes ideologias, inclusive de palestinos, que buscavam o direito a uma pátria, e praticavam sequestros e atentados. Em Munique, a facção Setembro Negro invadiu o alojamento de Israel e fez inúmeros reféns. Por despreparo da polícia alemã, o saldo final foi cinco terroristas, onze atletas israelenses e um policial mortos.

Mas, embora algo seja mostrado neste filme, o foco principal foi a atuação da seleção de basquete da União Soviética, que embora tivesse muitos talentos e chegasse a ser campeã da Europa, não podia ser comparada a nenhuma equipe americana. Foi com um grupo pouco experiente e com diferenças regionais acirradas que o técnico Vladimir Garanzhin (Vladimir Mashkov) precisou trabalhar para as Olimpíadas.

Além das dificuldades com a equipe, Garanzhin tem seus próprios problemas, com um filho necessitando uma cirurgia, e toda a pesada burocracia da União Soviética atrapalhando seus planos.

Ganhando aos poucos a confiança de seus comandados, o técnico consegue montar uma equipe forte, mas fortemente lastreada nos talentos pessoais de alguns jogadores, em especial Sergey Belov (Kirill Zaytsev). Ele logo percebe que precisarão ir à fonte do basquete, no próprio território americano, para conhecer mais sobre o esporte.

A construção da história é interessante, embora tenha uma atmosfera de dramalhão bem ao estilo russo, todavia isso isso não atrapalha o resultado final do filme. Boa parte das duas horas e treze minutos do filme é dedicado à construção da equipe e sua preparação para a Olimpíada.

O ponto alto do filme é mesmo a partida final contra a equipe americana. Naquela época, atletas profissionais não podiam competir numa Olimpíada, então todos os jogadores americanos vinham da liga universitária, que é o acesso natural para a liga profissional. Mesmo assim, as seleções americanas eram imbatíveis, nunca tendo perdido uma partida, daí o tamanho do desafio que os soviéticos tinham pela frente.

A partida final é mostrada quase em tempo real, empolgando mesmo quem nunca ouviu falar dessa partida. Mais emocionante ainda foi o final – os finais, na verdade – já que erros da arbitragem forçaram a repetição dos três segundos do título.

O filme é bem feito, com uma ótima ambientação de época, e traz uma visão crítica interessante da antiga União Soviética vista da ótica dos russos de hoje. Os atores, a maioria jovem, atua muito bem e dá muita vida ao filme.

Tem um ponto do filme que irá irritar um pouco os brasileiros. Ao mostrar a Copa Intercontinental de 1972, realizada em São Paulo, a imagem é de uma cidade à beira-mar, e o gigantesco ginásio do Ibirapuera foi reduzido a uma quadra de condomínio. O uniforme da seleção brasileira tem um amarelo bem mais escuro, e o jogo com os soviéticos é uma verdadeira batalha campal.

“Três Segundos” é um filme interessante para se ver, principalmente pela diferença do padrão hollywoodiano a que estamos acostumados. Mais interessante ainda é conhecer um evento real com um nível de detalhe poucas vezes mostrado antes. Durante a exibição dos créditos finais são mostrados os momentos finais do jogo real, com imagens da televisão da época.

Notas

Média