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Um pequeno segredo da família Schurmann

Pequeno Segredo(Little Secret)

Classificação: 10 anos

Estréia: 10 de novembro de 2016

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil

Duração: 107 min

Nota do crítico

Crítica

“Primeiramente”, esta crítica se encontra livre e liberta de qualquer manifestação política ou pessoal pelo dissabor de não contemplarmos Aquarius como elegido para participar da iminente corrida “oscarizável”. Porém, infelizmente, é sob este holofote, irradiando desconfiança e indignação, que aterrissou no circuito o segundo filme brasileiro mais polêmico do ano: Pequeno Segredo.

O longa é uma cinebiografia de Kat, filha adotiva soropositiva dos famosos navegadores Schurmann, que a acolheram em suas vidas pouco antes de seus pais virem a óbito, em decorrência de complicações da manifestação do vírus HIV.

Ao passo que a narrativa aborda os desafios que a menina enfrenta, seja na escola, seja nas primeiras descobertas da pré-adolescência, seja no drama de descobrir que sempre tomou remédios e não vitaminas, Pequeno Segredo também faz um paralelo com a história de seus pais biológicos e a missão assumida por Heloísa e Vilfredo Schurmann, não apenas de educar e cuidar, mas de não revelar que a doença, tão temida nas décadas passadas, estava presente da vida da família.

O melodrama permeia toda a trama e, como é sabido, para dirigir tal gênero se faz necessária uma sutileza muito singular, isenta e imparcial, dificilmente alcançada por alguém que também participou do drama na vida real. É o que ocorre com a direção de David Schurmann, irmão de Kat, que parece ter se deixado levar pelas armadilhas da sensibilidade e do parentesco, inerentes à situação.

Contudo, os três eixos narrativos escolhidos por David para o desenvolvimento do enredo na tela se comportam bem, mesmo com a falta de localização no tempo que é proposta, talvez seja pela linearidade do que está sendo executado (para alguns, um defeito, e para outros, uma virtude), que corrobora para um filme sem ápices dramáticos, projetando um mesmo ritmo do início ao fim, a despeito de todas as questões exaltadas.

Destarte, em que pese as falhas de sua execução, o roteiro logra êxito, visto que foi bem adaptado de sua matéria-prima: o best seller homônimo, escrito por Heloísa Schurmann e publicado em 2012. Não por acaso, o premiado roteirista Marcos Bernstein (sim, o mesmo de Central do Brasil), passou alguns dias com a “trupe” no intuito de reviver a história em seus detalhes para captar a percepção que Kat possuía de sua própria trajetória, porém, com uma pitada de liberdade ficcional.

Curioso é que a família Schurmann, predominantemente masculina, é exposta aqui em uma dimensão de dilemas femininos entre avó, “mães” e filha (destaque para a atuação de Júlia Lemmertz).  Ironia, opção do diretor, ou relapso do filme, o fato é que o papel desempenhado por Marcello Antony na pele do pai (Vilfredo Schurmann) é absurdamente discreto, e os outros três filhos do casal não passam de meros figurantes em cena. É como se os laços entre eles e a pequena Kat não fossem tão estreitos como suponhamos terem sido.

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Boa parte desta relação é demonstrada em cenas externas, que têm como cenografia um mar sempre de cor bonita e o barco (lar doce lar). Como não poderia ser diferente, a maioria das cenas foi filmada no município de Florianópolis, terra natal dos Schurmanns, a exemplo da Praia de Moçambique. A propósito, os cenários elegidos renderam uma fotografia espetacular, levando o espectador a transitar pelas belezas de Belém e da Nova Zelândia.

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Pequeno Segredo é uma bela obra e teria muito a nos dizer em seus 107 minutos, mas é uma pena ter sido um tanto econômica nas palavras e não ter dito tudo que esperávamos saber. Talvez faça parte do segredo. Para os mais realistas, dificilmente figurará entre os cinco indicados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, caso o inesperado aconteça, o verbo utilizado estará correto: figurar, visto que 2016 é um ano recheado de outras boas e melhores produções brasileiras e estrangeiras.

Ah, ao término da projeção, David nos brinda com imagens reais de Kat e sua família perambulando mundo afora. Pode se emocionar, as lágrimas são inevitáveis.

*O Cinépolis Natal Shopping apoiou este texto através de parceria com o SETCENAS, possibilitando à equipe assistir gratuitamente à sessão.

Notas

Média