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Velhos jabutis não vivem para sempre

Lucky(Lucky)

Classificação: 14 anos

Estréia: 07 de Dezembro de 2017

Genêro: Comédia, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 28min

Nota do crítico


Lucky (Harry Dean Stanton) é um antigo veterano da Marinha, com hábitos e atitudes rígidos em uma pequena cidade americana. Quando sua rotina é interrompida por um inesperado desmaio, Lucky toma consciência de sua velhice, caminhando inevitavelmente para o declínio, o qual deverá ser aceito. Nessa reavaliação difícil, entrará em cheque tudo o que Lucky acredita, e as suas reais prioridades precisarão ser redefinidas.


Crítica

Um dia de cada vez

Harry Dean Stanton (1926-2017) foi um ator que atravessou décadas se dedicando ao ofício da atuação. Trabalhou com grandes nomes da indústria, como Ridley Scott, John Carpenter e Win Wenders, além de lendas como Sergio Leone e Sam Peckinpah. Com tantos trabalhos de peso para o cinema, ainda apresentou disposição em sua vida para ensaiar passos como músico e escritor.

E se tal quantidade de trabalhos não foi maior, isso se deu pelo único motivo do seu tempo terreno ter se encerrado, no alto de seus 91 anos. Mas ainda em pleno vapor, engatando no ano passado pelo menos duas atuações que deixaram seu registro de maneira imponente no imaginário dos cinéfilos: uma pequena participação na terceira temporada de Twin Peaks e o protagonismo nesta estranha peça reflexiva chamada Lucky.

A história de Lucky se desenrola, no primeiro momento, como uma onda que vai e volta, uniformemente, em uma rotina sem atropelos, um dia sendo vivido de cada vez. Lucky/Stanton acorda, faz a sua higiene pessoal, seguida de exercícios de yoga para o corpo. Logo depois, inicia longas caminhadas que o levam através de paisagens áridas da pequena cidadezinha onde reside, de encontro às pessoas que vivem suas existências também de forma tranquila.

Em sua superfície, um filme sem grandes impasses, revelações ou sequer tensões para sufocar o público de grandes arroubos emocionais. O que se tem é um painel muito bem resumido do que é a terceira idade com os seus desafios e ritmo sereno.

Caminhar firme e constante em meio ao deserto. Imagem recorrente no filme, como a indicar um traço de tenacidade de viver do seu personagem-título.

Vem a tempestade

As coisas mudam de figura quando uma estranha síncope acomete o nonagenário, sem causa aparente, mesmo gozando de uma saúde exemplar. Embora nada apontando para uma dessas doenças dolorosas da velhice, e talvez por isso mesmo, o personagem finalmente abre os olhos para a inevitável finitude, a única coisa previsível da existência, ainda que nem todos parem para pensar a respeito.

E quem de nós está realmente preparado? Quem pode pensar a respeito com seriedade sem um mínimo de inquietação? Ou pior, experimentando medo real, quando tudo por fim escurecer, deixar de existir?

O desnorteamento diante da perspectiva de aproximação da morte. De onde ou do quê virá o sentido para tudo?

Daí que, em torno desta ideia, os anseios de Lucky se levantam para o sentido de tudo, para o não existir. Ele, um cético por natureza, um solitário por experiência, precisando lidar com a ideia seca de que, no final das contas, não somos nada. Não à toa, essa frase e suas variações são repetidas à exaustão no roteiro, por ele e por outros personagens.

Ao seu redor, os outros astros que orbitam em seu pequeno universo, percebem sua inquietação e comportamento arredio. A moça do restaurante (Yvonne Huff), que o vê fugir do assunto do desmaio por não querer ser incomodado; o advogado (Ron Livingston) de assuntos relacionados a heranças e seguros, ele próprio com uma história para contar a respeito; e o amigo fiel (vivido pelo icônico diretor David Lynch), tristonho pela fuga do jabuti centenário que criava há anos, alcunhado de Presidente Roosevelt. Todos, personagens que catalisam reflexões sobre a velhice e a morte, e que contribuem para avançar com a maturação sócio-emocional de Lucky.

Colaboração de longa data, Stanton e Lynch se unem uma última vez. Uma despedida digna.

A própria ideia de que tartarugas e jabutis, répteis extremamente resistentes às intempéries, um dia vão obedecer ao ciclo natural das coisas, ilustra e espelha os estados subjetivos sentidos pelo personagem. E seguindo esse pensamento, também não estariam todas as pessoas carregando nas costas, não um “caixão” ambulante, como os jabutis, mas uma ampulheta invisível, inexorável, pronta para avisar (lembrar) a qualquer momento que o tempo acabou?

“O que fazemos com isso? Vocês sorriem.”

Se descobrir como uma existência no mundo, isolada, próxima ao fim de sua jornada, não é uma tarefa fácil. Traz angústia, dúvidas, questionamentos. Porém, se a aceitação vem, a paz de espírito desce como um manto de sinergia com tudo o mais ao redor, todas as pessoas e as coisas.

Onde quer que Harry Dean Stanton esteja (se é que existe “onde”, como certamente comentaria seu emblemático personagem), ele deve estar em paz por sua obra-testamento, que marca de forma intimista e delicada uma vida, e reforça mais do que nunca que cinema e realidade se entrelaçam mais fortemente do que se pensa.

Notas

Média