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Viagens no tempo, zoação e chimichangas

Deadpool 2(Deadpool 2)

Classificação: 16 anos

Estréia: 17 de Maio de 2018

Genêro: Ação, Aventura, Comédia

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 59min

Nota do crítico

Crítica

Sucesso absoluto

Com um faturamento de quase 800 milhões de dólares, a partir de um orçamento de míseros 58 milhões, pode-se dizer que a 20th Century Fox encontrou a sua galinha dos ovos de ouro quando Deadpool (2016) foi lançado. Nenhum dos medalhões do estúdio (leia-se X-Men e Wolverine) propiciou retorno financeiro tão alto, ainda mais vindo de um filme Rated R, isto é, com alto teor de violência gráfica e de linguagem inapropriada.

A ousadia em emplacar o projeto teve suas vantagens: sem ele, Logan (2017) continuaria um sonho longevo, ou talvez, uma realidade vergonhosa (a exemplo dos outros dois filmes solo do mutante carcaju). Também mostrou que outros heróis podem ter destinos semelhantes, desde que não se tenha hesitação em assumir suas características mais marcantes, embora isso implique investir em lançamentos com alta classificação etária (ano que vem, Novos Mutantes testará uma inédita abordagem sobrenatural ao gênero).

Por outro lado, por que sempre adaptações de quadrinhos com uma pseudo-gravidade, sempre desmontada por um humor infantiloide? Por que não dar chance a um humor mais adulto, aproveitando o potencial de personagens que têm tudo a ver com o politicamente incorreto?

Exatamente por ser oportunista e aproveitar o momento, o ator Ryan Reynolds, a grande força motriz do filme, emplaca um continuação apenas dois anos depois do primeiro (anunciada já, inclusive, na época de lançamento deste). E se a ideia das sequências é nunca se contentar com pouco, Deadpool 2 (2018) segue a cartilha e eleva à enésima potência cenas de ação, a comicidade que tira sarro de tudo e de todos, além de acrescentar mais personagens, chegando ao cúmulo de inserir o mutante Cable (um dos anti-heróis mais preteridos dos fãs de HQs), e de lançar as bases do que seria o grupo X-Force no cinema.

Na trama, se é que faz diferença, em meio a uma grande perda, Wade Wilson se depara com um mutante armado até os dentes, vindo do futuro. Sua missão? Matar o adolescente Firefist, enquanto ele não se torna um assassino impiedoso dali a alguns anos. Por coincidência do destino (ou preguiça dos roteiristas, como dispara Deadpool mais de uma vez), o garoto está próximo à Wade, o que desencadeia uma série de tiradas sem noção, e embates corpo a corpo de tirar o fôlego entre os dois mutantes, parceiros improváveis de longa data nos quadrinhos.

O icônico mutante dos quadrinhos surge em toda sua brutalidade, sob a pele de ninguém menos do que Josh “Thanos” Brolin.

Tinha tudo para dar certo, ok? Ok. E até certo ponto continua sendo a zoação que todo mundo já curtiu do primeiro filme. Mas será que ficar em terreno conhecido sempre é uma boa estratégia?

Quando a galhofa também tem defeitos

De todos os pontos altos do filme, as piadas continuam a se destacar. Reynolds, como mutante tagarela, prossegue encadeando uma atrás da outra, às vezes rápido demais para serem escutadas, e ainda assim compreensíveis o suficiente para uma ou outra gerarem gargalhadas. Diga-se de passagem, sem o mínimo de pudor de inserir palavrões ou escatologias a torto e a direito.

E se elas não forem suficientemente engraçadas (principalmente para um público mais sisudo), ainda restarão as citações jocosas, inúmeras, aos X-Men (com certas participações especiais pra lá de inusitadas), ao Universo Marvel, e às mal sucedidas adaptações da DC. Sobra até espaço para pesadas chacotas que o personagem faz com o seu intérprete, naquelas que talvez sejam as cenas pós-créditos mais bem sacadas de todos os tempos.

Pode ser que, em determinado momento, o excesso canse, é verdade. Nada que prejudique a experiência, sabendo que no geral há pouco espaço para respiros, seja para desenvolvimento da história, ou para ganchos dramáticos (felizmente, sabendo que nesses momentos reside o principal ponto falho do filme, quando se quebra a comicidade em função de uma carga dramática que não combina com o personagem).

Os X-Men, mesmo sem participarem ativamente dos eventos do filme (à exceção do Colossus), estão presentes a cada menção ou piada de autorreferência.

A montagem ágil também acerta nas cenas que requerem maior estimulação, com quadros se sucedendo de forma tão frenética ao ponto de se correr o risco de perder alguma coisa, caso não esteja atento. O que é ótimo para os tiroteios, perseguições ou combates mano a mano, tornando-os tão bem acabados como seria em qualquer outro exemplar do gênero de ação, como John Wick (2014) ou Atomic Blonde (2017), ambos também dirigidos pelo ex-dublê David Leitch.

Não fossem os efeitos especiais tão artificiais em algumas cenas (como a perseguição ao comboio), com CGI no talo (requerendo um melhor acabamento no pós-produção), certamente seria um filme altamente surtado.

E com tudo isso, aproveita bem a ação para propiciar piadas certeiras em cima do fator de cura de Deadpool, que chega a ser mutilado, esmagado e desmembrado das piores e mais variadas maneiras que se possa imaginar. Algo tão cartunesco que dificilmente chocará pelo excesso de jorros de sangue em tela. 

E o que vem por aí?

Depois de tudo o que já foi explorado, dentre viagens temporais e X-Force, fica a dúvida sobre o que um adicional capítulo traria de novo. Pois que a história está no limiar da saturação, e uma continuação precisa ter ciência disso, e saber investir em novidades plausíveis sem sair do seu foco, sempre concentrado em conflitos de pequena escala.

Isto é, de uma maneira que consiga manter uma relativa independência em relação à mitologia da franquia X-Men, e não crie premissas que flertem com o megalomaníaco. Talvez continuar sem super-vilão aparente seja um acerto a ser mantido. Não investir muito nas viagens temporais, outro.

De uma maneira ou de outra, dois filmes divertidos, a recolocação de Ryan Reynolds como ótimo ator de comédias, e ainda, a adaptação de personagens altamente visuais, como Dominó e Cable, são motivos mais do que justos para bater palmas por um filme de super-herói sair do “mais do mesmo”.

Notas

Média