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Um Leviatã na vice-presidência

Vice(Vice)

Classificação: 14 anos

Estréia: 31 de janeiro de 2019

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 12min

Nota do crítico

Crítica

Em tese, a vice-presidência é um cargo que deveria ser meramente simbólico no sistema presidencialista, mas os brasileiros sabem, por experiência própria, que esse nem sempre é o caso.

Por isso é tão fácil conectar-se com Vice, pois ele parece nascer de um sentimento atual de insatisfação diante da convulsão social e política provocada por uma guinada conservadora ao redor do mundo.

Então de cara, se percebe que a obra do diretor e roteirista Adam McKay não vai agradar a gregos e troianos em uma era de opiniões polarizadas, mas o longa oferece, sem dúvida, muito material para discussão.

O filme acompanha a trajetória de  Dick Cheney, um senhor de fala mansa, meio insosso e, aparentemente, nada impressionante.

Não obstante, ele foi o homem forte durante o governo do então presidente George W. Bush nos EUA, e realizou diversas manobras políticas e legislativas de repercussões duradouras (e negativas).

Cheney é o ditado vivo de que “quem come quieto, almoça e janta”

O filme não traça um retrato elogioso de Cheney, muito pelo contrário. O personagem apenas piora com os anos, tornando-se cada vez mais implacável, beirando o monstruoso.

Por isso, embora Vice se apresente como uma comédia mordaz, seu humor é tão ácido que acaba sendo verdadeiramente corrosivo.

Mal se sente vontade de rir quando o próprio longa mostra, talvez enraivecido e um pouco horrorizado, o protagonista encontrar brechas técnicas para começar uma guerra que beneficia somente empresas, e ainda por cima às custas de vidas humanas (qualquer semelhança com as tragédias ocorrendo no Brasil não é mera coincidência).

A preocupação de McKay é ligar os pontos, retroceder para explicar como decisões políticas e promulgações de leis têm consequências práticas no cotidiano das pessoas.

Como ele fez em seu filme anterior, A Grande Aposta, ele procura facilitar um tema maçante com uma linguagem mais simples, piadas e sacadas visuais interessantes.

Vice explica os bastidores da política para leigos

A edição colabora muito nesse sentido, criando metáforas claras e explicativas, como na cena onde Cheney propõe a Bush ser um vice, digamos, singular.

Intercalando a conversa dos dois, aparecem imagens de uma pescaria, indicando a dissimulação do protagonista, que fisga o candidato à presidência como ele faria com um ingênuo peixe.

É uma forma dinâmica de comunicar bastante informação e ainda entreter. Mas, nem sempre o humor cáustico e as variadas metáforas funcionam perfeitamente ao longo da história.

Algumas são só estranhas, como a encenação com diálogos Shakespearianos, que não fica nenhum pouco engraçada. Parece existir uma certa raiva latente pulsando no filme, abafando suas tentativas de irreverência.

O longa censura até mesmo seu próprio público por sua apatia e ignorância, o que pode ser um tapa na cara metafórico, um tapa justo, mas possivelmente difícil de aceitar.

W. Bush é presa fácil para o experiente Cheney

Contudo, se o longa desequilibra na hora de encontrar o tom entre comédia e drama, seu elenco está pronto para ser um porto seguro.

Todos os atores estão afiados em seus respectivos papéis. Sam Rockwell dá um ar juvenil a W. Bush e Steve Carell se esbalda como o desbocado Donald Rumsfeld.

A essa altura, é praticamente redundante dizer que Amy Adams faz um bom trabalho. Embora o longa resista em envelhecer a atriz (algo incompreensível, diga-se de passagem), não lhe dando muito mais que algumas trocas de peruca, Adams se sai bem como a determinada Lynne Cheney.

Sua dobradinha com Christian Bale já tem gosto de sucesso (este é o terceiro filme no qual os dois atuam juntos), e em Vice eles parecem, mais do que nunca, um casal super poderoso na tela.

Bale, com sua intensidade usual e disciplina impressionante, surpreende novamente com uma transformação física (o ator engordou 18 quilos para o papel). Porém, seria equivocado resumir sua atuação apenas a isso.

Cheney, uma figura enigmática, é um sujeito de natureza impenetrável, e Bale é capaz de transmitir isso e, ao mesmo tempo, a sagacidade do personagem no jogo político.

É possível ver as engrenagens girando na mente de Cheney enquanto ele calcula suas oportunidades com um rosto calmo e compenetrado. Bale se agiganta no papel e torna visível a fome de poder por trás do semblante de senhor discreto.

Em suma, Vice quer mostrar como permitimos facilmente que políticos nos confundam, tomem direitos e reinem absolutos, como Leviatãs em pleno século XXI. 

Notas

Média