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A vida que elas (não) sonham

Tully(Tully)

Estréia: 20 de abril de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 96 min

Nota do crítico

Crítica

Imagine você, mãe de dois filhos, sendo um deles especial, que necessita de atenção redobrada. Adicione uma terceira gravidez, nada planejada. Ajuda do esposo para cuidar da prole? Não, ele não está muito interessado em cooperar nestas tarefas domésticas que exigem mais esforço. A propósito, esqueça babá e empregados, uma vez que, integrante de uma classe bem média, sua a situação econômico-financeira não é confortável. Por fim, ante tudo isso, apenas se esforce para exercer, com louvor, a tríade perfeita: ser uma boa esposa, mãe e dona de casa.

Difícil? Para Marlo, personagem de Charlize Theron, em Tully, também.

Terceira parceria do diretor Jason Reitman com a roteirista Diablo Cody, já aclamada por Juno (2007), o filme aborda a vida da mulher contemporânea, que ainda respira toda essa herança deixada pelo século pretérito, e sobre a qual recai toda a responsabilidade de manter o sistema operacional de um lar.

Como a dor ensina a gemer, já dizia o ditado, toda ajuda é muito bem-vinda para a protagonista conquistar seu ingrato desígnio diário, ainda mais quando o seu irmão a presenteia com o que ela mais deseja no momento: uma ajuda profissional repleta de paz de espírito.

Assim, Tully, uma babá noturna, aterrissa como mágica na casa de Marlo para ser e fazer o que ela, até então, não suporta mais. Outrossim, Tully se reputa no alter ego da personagem e, por que não, de qualquer mulher: é jovem, atraente, leve, despojada, cozinha e cuida de um bebê como ninguém, mas sem esquecer de aproveitar a vida de forma inconsequente.

Essa temática posta em questão durante os 96 minutos de projeção pode até soar como algo corriqueiro na telona, mas o objetivo do longa (concluído com sucesso, é bom frisar) é desconstruir toda essa trivialidade, buscando a sensibilidade que somente um espelho, que mostre unicamente o que sonhamos ou vislumbramos, poderia entregar.

Para tanto, o roteiro não deixa lacunas ao desenhar a protagonista imersa em uma jornada de completo autoconhecimento, bem à luz do existencialismo, para gozar a vida como deve (e merece), o que leva o espectador mais reflexivo ao delírio, principalmente no transcorrer do plot twist, quando nem tudo é o que parece ser.

A dedicação de Charlize Theron ao papel, que precisou engordar mais de 20 kg para compor a figura da personagem, algo semelhante ao que realizou de forma triunfal em Monster (2003), foi de suma importância para caracterizar não só o triste estereótipo feminino, ainda submisso ao machismo punitivo, como também o marasmo de um cotidiano bem conhecido por uma parcela delas, que insistem em nascer para casar, servir, procriar e morrer.

Sem dúvidas, essa equação no filme é majorada e chega a revoltar os mais pós-modernos, visto que a mensagem transmitida carrega consigo uma ilustração nada subliminar de mulher para mulher, de mãe para mãe; vide a cena dos primeiros contatos de Marlo com a sua terceira filha (Mia), que, ironicamente, enfatiza o mais do mesmo das coisas. Nada de novo.

Tully é um longa que, acima de tudo, esbraveja um grito de liberdade que ainda resta na vida de todas as esposas e companheiras, que se limitam a idealizar o respeito e o amor próprio, sem desfrutá-los, em detrimento de outrem.

Uma pena que não são como Cindy Lauper e seu hino: “Girls just wanna have fun”.

Notas

Média