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Villa-Lobos: vida e obra do pajé da música brasileira

Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão(Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão)

Classificação: Classificação indicativa livre

Estréia: 09/03/2005

Genêro: Biografia,drama

Nacionalidade: Brasil

Duração: 1h12m

Nota do crítico

Crítica

Uma reclamação generalizada, e infelizmente verdadeira, é de que somos um país de memória curta. É difícil precisar fatos que ocorreram apenas algumas décadas atrás, é o que garante Zelito Viana, que foi obrigado a fazer um gigantesco trabalho de pesquisa para um projeto antigo, um filme sobre Heitor Villa-Lobos. Mas, diz a sabedoria popular que há males que vem para o bem. À época do lançamento do filme “Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão” (BRA,2000), a mídia digital já estava disponível em DVD, permitindo o registro com uma melhor qualidade de som e imagem.

Se para outro tema isso não seria importante, neste caso específico foi fundamental. A obra riquíssima do grande compositor brasileiro ficaria perdida num som monofônico, tal a sua imensa profusão de detalhes. A imagem, igualmente importante no filme, perderia a riqueza da bela fotografia, ao ser mutilada para ser mostrada na resolução paupérrima das antigas fitas VHS.

O filme poderia ser analisado pelo aspecto musical ou pelo rigor histórico dos fatos. Se aos produtores do filme foi difícil conseguir levantar uma biografia do maestro, nem me atrevo a questioná-la. Do primeiro aspecto, só me veio à lembrança Dona Débora, uma querida professora de música do Colégio Estadual de Santa Rita, que se esforçava para nos ensinar alguma noção desta nobre arte.

Se meu conhecimento musical continua nulo, pelo menos consegui identificar o “O canto do pajé”, que tentávamos cantar nas solenidades do Centro Cívico. Claro, nunca saía tão lindo quanto o coro de quarenta mil vozes regido por Villa-Lobos, fato este, registrado no filme.

Vamos, então, analisar o filme pelo melhor ângulo de que dispomos: o do espectador. Na dúvida entre uma peça biográfica e uma obra cinematográfica, Zelito Viana certamente optou pela última. O filme usou – e abusou – dos flashbacks, indo e voltando no tempo, a ponto de deixar confusa uma pessoa pouco habituada a este artifício. Para viver o personagem, Marcos Palmeira faz Villa-Lobos jovem, enquanto Antonio Fagundes o representa na faze madura.

Normalmente, usa-se um ponto de referência, e a partir dele, faz-se viagens ao passado, para resgatar as lembranças do personagem. No filme, a história inicia em 1959, no último dia da vida do artista, e são mostrados acontecimentos em várias épocas diferentes. Outro ponto referencial utilizado foi a primeira viagem de Villa-Lobos aos Estados Unidos, em 1944. Durante a viagem, ele precisou ser hospitalizado, e também aí são encadeados diversos flashbacks.

Apesar dessas idas e vindas, a vida do maestro vai sendo delineada, mostrando as pessoas que influíram em sua vida, como o pai rigoroso, mas incentivador da arte (Othon Bastos), a mãe carinhosa, mas castradora de sua música (Marieta Severo), a tia Fifina (Lucinha Lins), que o iniciou em Bach, a primeira mulher, Lucília (Ana Beatriz Nogueira), o músico Artur Rubinstein (Emílio de Mello), a segunda mulher, Mindinha (Letícia Spiller), além de outros que aparecem de relance, como o escritor Érico Veríssimo (Marcelo Tás), que foi o seu intérprete nos Estados Unidos.

Um ponto polêmico da biografia de Villa-Lobos é a viagem que fez ao Nordeste e Norte do país, na primeira década do século passado. Se Villa-Lobos não foi até o Amazonas, não quer dizer que não tenha se aventurado muito, pois num país sem estradas, e sem comunicações, como era o Brasil daquela época, uma viagem ao interior da Paraíba já era uma expedição que envolvia inúmeros riscos, fossem índios selvagens, doenças endêmicas, ou salteadores.

Contudo, duas coisas tornam “Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão” um filme imperdível. A primeira, é que foi feito o retrato do ser humano, e não do mito. Heitor Villa-Lobos era uma pessoa com defeitos e qualidades, que o fizeram ser amado e odiado por muitos. O mesmo sujeito irascível, que não aceitava a autoridade de ninguém, usou a máquina do Estado Novo para promover a educação musical no ensino público.

O homem que amava o seu país, a ponto de tê-lo presente em todas as suas obras, não aceitava ser apresentado como “compositor brasileiro”, por considerar a música um valor universal.

O segundo aspecto, que torna o filme interessante, é a transposição, para imagens, de várias das composições do grande mestre. O melhor exemplo disso é a seqüência da gravação de “Trenzinho caipira”. Outras cenas ilustram momentos de criação de certas obras, juntando o tema e música, num conjunto fascinante.

Para leigos como eu, além da conhecidíssima Ária da Bachiana N.° 5, foi possível reconhecer outras músicas, como os mencionados “Trenzinho caipira”, e “O canto do pajé”. Além dessas, outras composições deliciam os ouvidos do espectador, na interpretação da Orquestra Sinfônica Brasileira, e do Coro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Lamentavelmente, o filme não foi lançado em Blu-Ray, mas o DVD nacional produzido pela Playarte teve uma edição de boa qualidade. Foi mantido o formato de tela Widescreen, com boa qualidade de imagem, áudio em português Dolby Digital 5.1 e 2.0, e, as legendas em português, inglês, espanhol e francês (uma dica: deixem as legendas em português, pois existem diálogos em inglês e francês).

Na parte de extras, cuidado, pois existem duas páginas de opções, e o melhor material está na segunda. Estão disponíveis: biografia de Villa-Lobos, notas de produção, biografia dos atores e do diretor, Making Of com nove minutos produzido pela TV Cultura, trailer, depoimento do elenco (19 minutos), o documentário “Villa-Lobos – início do projeto” (23 minutos), depoimento da equipe técnica (7 minutos), e o videoclipe “O canto do pajé”.

“Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão” é, como diz o título, um filme sobre paixões. Não apenas as paixões do Villa-Lobos, pela música, pelas mulheres, e pela vida, mas, também, dos idealizadores do filme, que perseguiram a idéia anos a fio, até conseguirem concretizá-la. O filme é um monumento vivo a uma das maiores figuras de nossa história, não se limitando ao factual, mas dando uma pincelada do conjunto de sua obra, sem deixar de lado sua dimensão humana. Parabéns a Zelito Viana, seu filho Marcos Palmeira, Antônio Fagundes, Letícia Spiller, Ana Beatriz Nogueira, e toda a equipe de produção. E, parabéns para nós, que podemos apreciar este filme, com um prazer redobrado.

Notas

Média