Nise: o coração da loucura e a loucura do corpo inteiro

… Há dez mil modos de ocupar-se da vida e de pertencer a sua época… Repetindo, há dez mil modos de pertencer à vida e de lutar por ela.  (Nise da Silveira)

O filme Nise – O Coração da Loucura, lançado no Brasil em 2015 e exibido com sucesso de público em 2016, é protagonizado por um elenco composto por Glória Pires, Simone Mazzer, Fabricio Oliveira, Augusto Madeira, Felipe Rocha, Roberta Rodrigues dentre outros, dirigido por Roberto Berliner, roteiro escrito por várias mãos, dentre elas, Patricia Andrade, Leonardo Rocha, Roberto Berliner e Flávio Castro. A música precisa e discreta foi composta por Jaques Morelenbaum.

As lentes voltadas para a atividade profissional da médica psiquiátrica Nise da Silveira no hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, transforma a obra ficcional cinematográfica em um drama-biográfico. A rotina dela nos transporta para uma época onde o tratamento psiquiátrico era realizado em um universo de confinamento, isolamento e utilização de procedimentos médicos invasivos, agressivos e violentos.

Glória Pires protagoniza o filme Nise - O Coração da Loucura
Glória Pires protagoniza o filme Nise – O Coração da Loucura

Do ponto de vista técnico profissional, o hospital concentrava uma população  masculina, estabelecendo relações de trabalho baseada na cultura machista predominante na época (anos 40), fato que se constituía em desafio para as mulheres que se aventuravam fazer carreira em universo profissional dominado pelo sexo masculino.

Tratando-se de um filme classificado como drama-biográfico, esperava-se que este seguisse a linha de tempo da vida da Dra. Nise da Silveira, isso não aconteceu, o roteiro pontuou a vida profissional e o ambiente de trabalho da psicanalista, deixando por conta do expectador imaginar as dificuldades vividas por ela ao ingressar na escola de medicina, em um tempo onde às mulheres eram preparadas para o casamento, reprodução, cuidados com o marido, os filhos e a casa.

O filme pontua a rotina e os desafios enfrentados por Nise no seu retorno ao trabalho depois de passar um período na cadeia, aprisionada por questões políticas, assunto não tratado na ficção. Os desafios de Nise no cinema se ampliam quando suas ideias de modernidade no tratamento psiquiátrico não são aceitas e ela é encaminhada para atuar no desprestigiado setor de terapia ocupacional do hospital. Ali, ela mergulha de corpo,  coração e alma no universo da loucura, transforma o espaço em um ambiente de expressão e criação artística como terapia auxiliar no tratamento psiquiátrico.

Glória Pires e parte do elenco do filme reunido
Glória Pires e parte do elenco do filme reunido

Ao propor métodos alternativos, respeitosos e humanizados de tratamento psiquiátrico, cada vez mais distanciava-se de seus colegas médicos e aproximava-se dos pacientes. Ao confrontar a loucura dos ditos loucos com os normais, fundem-se as loucuras fazendo-as falarem mais alto do que o reacionarismo dos personagens que delas se ocupavam. Tanto o é que nos parece que o sucesso do filme deve-se à fusão de sentimentos dos personagens, ora se aproximando do real, hora dele se distanciando e se aproximando do imaginário e fantasia.

Ao tratar na ficção de um personagem que na vida real desempenhou funções emblemáticas de rupturas com a concepção e tratamento da loucura, bem como da imersão de uma mulher no mundo dos loucos, o cinema não poderia deixar de mostrar diferentes facetas e comportamentos desse personagem, principalmente a coragem no enfrentamento não dos loucos, mas dos ditos normais, colegas de trabalho.

A arte como terapia da loucura
A arte como terapia da loucura

Aí se evidencia a sua própria loucura ao entregar-se de corpo inteiro, cotidianamente, para que a loucura dos outros fossem compreendida e tratada com dignidade. Daí, faz sentido o diálogo dela com um funcionário truculento ao dizer, “Ouça, observe e cale sua boca”.

Assim, o filme envereda por questões de ética, moral, respeito, estética, expressão artística e sentimental, bem como social e inclusiva. Temas que agrupados podem muito bem empurrar a obra de arte para o sucesso ou insucesso. Nesse caso, como bem se encontra na sinopse do filme,...ao recusar-se a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos, isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado setor de Terapia Ocupacional, onde dá inicio à uma revolução regida por amor, arte e loucura, compreende-se o sucesso do filme a partir do desempenho dos atores e mais particularmente da protagonista, Glória Pires.

Uma mulher de aparência frágil tornar-se forte nas atitudes, sem contudo ser autoritária, revela-se enérgica sem ser grosseira, acolhedora sem ser paternalista ou maternalista piegas, decidida e surpreendente desafiadora frente os superiores, colegas de trabalho e seus arrobos machistas.  Isso, por si só, situa o filme no gênero que o classifica, fazendo-o interagir com o público na atualidade dos temas tratados, sem distanciar-se da magia própria da linguagem cinematográfica.

Por fim, não sei se seria demais tratar da vida da Dra. Nise da Silveira como mulher defensora de direitos e prisioneira política, aí talvez rendesse outro filme.

Nise – O Coração da Loucura continua em cartaz na sessão Cinema de Arte do Cinépolis Natal Shopping durante toda a próxima semana.

Fontes

Adoro Cinema | Itaú Cinema | Wikipedia