Os múltiplos olhares na Mostra de Cinema Peruano

A edição da 28º Cine Ceará apresenta o melhor do cinema contemporâneo produzido no Peru. Começou no último dia 30 e segue até domingo (05/08) na Caixa Cultural – Fortaleza a Mostra de Cinema Peruano, com entrada gratuita.

O SetCenas conversou com o curador da Mostra, Pablo Arellano, para saber quais aspectos lhe chamam atenção como curador, seus desafios na seleção dos filmes e se o cinema feito no Peru de alguma maneira dialoga com o cinema de guerrilha feito no Rio Grande do Norte e no Brasil.

SETCENAS: Faz quanto tempo que você está envolvido com o evento Cine Ceará?

PABLO: Esse é o quinto ano que estou trabalhando aqui no Cine Ceará. Comecei fazendo a curadoria da mostra competitiva de longas no ano de 2015 e 2016 e a partir desse mesmo ano estou fazendo a mostra em homenagem a países ibero-americanos.

SETCENAS: Mas você nasceu em qual país?

PABLO: Eu sou da Espanha. Eu estudei cinema em Cuba então todos os meus parceiros eram latino-americanos, grande parte do cinema que eu estudei era latino-americano e moro aqui [em Fortaleza, há cinco anos], então de alguma forma eu saí da Espanha e fiquei muito vinculado a latinamérica, e acho que é um cinema que está crescendo muito, que tem muito o que falar, um cinema muito urgente, fico muito feliz de ter-me dado a possibilidade de fazer uma mostra e com total liberdade, uma coisa que agradeço muito ao Cine Ceará que eu tenho liberdade de escolher os filmes que eu considero dentro da curadoria.

SETCENAS: Quais aspectos nos filmes que mais lhe chamam a atenção como curador?

PABLO: Então, a gente assumiu um “reto” [desafio] para fazer a Mostra de Cinema Peruano quando nos anos anteriores a gente trabalhou com o cinema chileno, cinema mexicano, cinema argentino, espanhol, português, então, cinematografias muito grandes e muito conhecidas, e Peru tem uma cinematografia muito interessante mas menos conhecida aqui no Brasil. Isso foi a primeiro “reto” [desafio], fazer uma grande mostra com 15 filmes e que fosse um mergulho na cinematografia que nunca tinha passado pelo Ceará assim como mostra e então a gente começou a pesquisar e viu uma linha muito interessante de cineastas muito novos que estão fazendo os primeiros filmes deles sem orçamento e quase sem equipe, eles sozinhos bancando o filme todo, e fazendo retrato do país, saindo desse núcleo econômico e audiovisual que é  Lima e querendo mostrar todo o país, não é? Peru é um país com uma riqueza cultural enorme. E de alguma forma essa é a linha que a gente tentou seguir, o retrato do país com cineastas novos como eles ou cineastas mais consagrados, pegando filmes que já passaram por grandes festivais, todos contemporâneos, filmes que foram fenômenos dentro do país, no Peru, e que levou para o cinema uma quantidade de público tão grande quanto o cinema [produzidos] dos Estados Unidos.

SETCENAS: O relato que você diz sobre sua curadoria fala sobre o Cinema Regional produzido no Peru. Nós do Estado do Rio Grande do Norte não temos muito apoio governamental para a produção audiovisual. Fazemos boa parte de nossas obras no que chamamos de guerrilha [com recursos próprios ou com apoio de profissionais do audiovisual que não cobram seus serviços]. Você acha que, vendo o cinema feito no Peru, podemos aprender as estratégias de fazer o cinema com pouco orçamento?

PABLO: Sim, acho que tem muito a ver. O que estão fazendo no Peru e falando sobre o Rio Grande do Norte, são cineastas que estão fazendo cinema porque querem fazer cinema. No Peru ainda tem muito o que caminhar enquanto a Lei de Cinema, os apoios, a mesma coisa que está acontecendo agora no Brasil, sobretudo depois que derrubaram a [presidente] Dilma. Dilma estava seguindo uma estratégia cultural e com o [ex-presidente] Lula estavam seguindo uma política muito interessante de apoio fora dos grandes núcleos Rio-São Paulo e agora está voltando outra vez. E isso é um problema. Aqui no Ceará é a mesma coisa. A gente sentia cinco anos atrás como estava crescendo o cinema cearense e agora a luta é maior. Acho que nós podemos se sentir muito identificado com muitos dos filmes do Peru.

SETCENAS: Você identificou algum tema recorrente nos filmes desta Mostra?

PABLO: Tem muitos filmes que dialogam entre eles, como essa ideia de retratar o país, retratar todas as culturas do país, olhar de frente para a pobreza do país, olhar de frente para a questão indígena que é uma questão pouco falada nos meios de comunicação. Eu falo muito desse conceito da “outra metade”, a outra metade do mundo que a gente nunca olha e que está muito representado na Mostra.


PROGRAMAÇÃO

Terça-Feira, 31/07

17h – Coletiva de imprensa – Apresentação das Mostras do 28º Cine Ceará

19h – Videofilia (e outras síndromes virais), de Juan Daniel F. Molero

Quarta-Feira, 01/08

15h – Saicomanía, de Héctor Chávez

17h – A Última Tarde, de Joel Calero

19h – Ícaros: Uma Visão, de Leonor Caraballo e Matteo Norzi

Quinta-Feira, 02/08

15h – Sob a Influência, de Karina Cáceres

17h – Reminiscências, de Juan Daniel F. Molero

19h – Continuo Sendo (Kachkaniraqmi), de Javier Corcuera

Sexta-Feira, 03/08

15h – A curiosa vida de Piter Eustaquio Rengifo Uculmana, de Gianfranco Annichini

17h – Outubro, de Diego e Daniel Veja

19h – NN, de Héctor Gálvez

Sábado, 04/08

15h – Cabo para a Tierra, de Karina Cáceres

16h – PALESTRA – O Cinema Regional Peruano, de Emilio Bustamante (jornalista, crítico e professor de cinema).

17h – Climas, de Enrica Pérez

19h – Paraíso, de Héctor Gálvez

Domingo, 05/08

15h – Rosa Chumbe, de Jonatan Relayze

17h – O Espaço Entre as Coisas, de Raúl del Busto

19h – Madeinusa, de Claudia Llosa

Para saber mais sobre a programação completa sobre o Cine Ceara acesse: https://www.cineceara.com/