Entrevista: Petrus Cariry, o cinema político e a política do cinema

Petrus Cariry é um cineasta cearense, filho do também consagrado diretor Rosemberg Cariry, e tem em sua filmografia filmes como “O Grão” (2007), “Mãe e Filha” (2011) e o mais recente “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” (2015).

Petrus tem, em sua obra, uma pegada regional e política que traduz a sua militância assumida na vida pública, por meio de suas mídias sociais. Conversamos com o diretor sobre sua obra, o cinema político e os processos do fazer cinema no Brasil.

SETCENAS: Nos tempos do Cinema Novo, grandes cineastas brasileiros, de forma velada ou explícita, tiveram parte de seu reconhecimento por contestar o regime político ditatorial vigente na época, por vezes em entrevistas mas, sobretudo, dentro da própria narrativa fílmica.  Qual sua avaliação sobre a abordagem destes temas de cunho político-social no cinema brasileiro pós-Retomada?

PETRUS CARIRY: Acredito que o Cinema Novo se destacou bem mais pelas suas proposições estéticas e pela ousadia de misturar de forma nova e mesmo revolucionária o melhor da cinematografia mundial com manifestações culturais do povo brasileiro, em busca de uma linguagem própria. É claro que a consciência política não podia estar separada dessa busca do discurso, dessa construção estética. Hoje, quase cinquenta anos depois, vemos que o legado do Cinema Novo foi importante não apenas para o Brasil mas também para muitos países, posto que teve especial destaque como proposição estética e política no chamado cinema do Terceiro Mundo, que despontou de forma muito vigorosa a partir da década de 1960. O Cinema Novo, mesmo sendo tão brasileiro, abre portas de diálogos com o mundo.

Na Retomada, temos outras conjunturas políticas. Muitos dos filmes realizados pelas novas gerações são políticos enquanto questionadores da realidade, mas não mais na mesma intensidade ou com a crença de “transformar o mundo”. É preciso perceber que as políticas neoliberais e a expansão global dos mercados financeiros foram devastadoras e cresceram muito as indústrias de manipulação das consciências.

SETCENAS: Muito se falou nos últimos tempos na mídia brasileira e, na maioria das vezes, de forma pouco embasada, sobre a Lei Rouanet. Seus críticos alegam que a Lei privilegia artistas que pouco necessitam do amparo governamental, por já terem alcançado reconhecimento nacional, além de ser um modelo de fomento que contribui para um aprofundamento da dependência dos recursos estatais, e não de sua superação, como defendido pelo neoliberalismo econômico. Qual a importância que você atribui às leis de incentivo fiscal para os produtores do setor audiovisual brasileiro?

PETRUS CARIRY: Não há dúvida quanto à importância da Lei Rouanet. O que precisamos é de correções de rumo, para que seja uma prática capaz de abarcar as ações culturais e artísticas em todo o país e não apenas com tão grande concentração de recursos no Sudeste. Nós vivemos em um mercado ocupado, dominado pela hegemonia da indústria audiovisual norte-americana e sem incentivo é completamente impossível que exista um cinema brasileiro. Mesmo com incentivo é difícil. Você termina um filme e não tem onde exibir. As janelas são os festivais e nichos de mercado de cinema de arte. Imagine sem incentivo, pouca produção haveria. Audiovisual pode ser arte e contestação, mas é também uma indústria cara e sofisticada. Há uma guerra pelo domínio dos mercados audiovisuais no mundo.

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SETCENAS: Há pouco, o governo vigente tentou eliminar o Ministério da Cultura sob a alegação de corte de gastos por um excesso de ministérios, sugerindo que a produção cultural fosse de menor relevância para o país e que, em momentos de crise, seria necessário priorizar áreas como saúde, educação e segurança. Sob sua óptica de produtor audiovisual, como você avalia a importância da cultura para o desenvolvimento de uma nação?

PETRUS CARIRY: O Ministério da Cultura sempre teve um papel muito importante e estratégico na produção de filmes com maiores preocupações culturais e artísticas, apesar dos recursos financeiros escassos. Temos um grande potencial criativo e sobretudo uma geração de jovens muito talentosos, mas faltam-nos os recursos necessários para desenvolver estas potencialidades e torná-las conhecidas no Brasil e no mundo. O que deve ser feito é aumentar os recursos e colocar a cultura do país como um fator importante do desenvolvimento e da promoção humana, contribuindo para a cultura e as artes. A salvação do Brasil é a sua rica diversidade cultural, muito mais do que a monocultura da soja que nos puxa para o passado, para a dependência de uma situação colonial e socialmente excludente. A cultura e a educação não podem ser negligenciadas como estão sendo, com tantos cortes nos programas mais inclusivos e socialmente mais relevantes. O neoliberalismo é algo muito próximo ao caos social.

SETCENAS: Existe alguma influência que já se faz presente no setor audiovisual oriundo de nosso cenário político atual? Se sim, qual(is)?

PETRUS CARIRY: Não, acho que ainda não podemos divisar essas influências no cinema. Com certeza elas virão, com consequências imprevisíveis. O que já percebo é um clima de grande insatisfação, de desesperança, de “sem-saída” no meio da crise moral e política que se abate sobre o Brasil. Neste momento sombrio, com certeza novas luzes serão acesas, as chamas de novas lutas sociais se propagarão e a esperança no futuro será minimamente restabelecida. Acredito que não podemos viver sem esperança.

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Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois é o filme mais recente de Petrus Cariry

SETCENAS: Diversos países atribuem um caráter estratégico à cultura, até mesmo como forma de ampliação de seu poderio econômico, influenciando novos mercados. Também é conhecido que o investimento em cultura por parte do Estado brasileiro é dissonante inclusive ao de outros países latino-americanos. Como você enxerga essa resistência histórica por parte dos estadistas e legisladores brasileiros em consolidar políticas públicas estáveis para a cultura?

PETRUS CARIRY: Não faltaram visões mais largas para a implantação e políticas públicas para as artes e a cultura no brasil. As gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira, apontam nesse sentido. Eles valorizaram a diversidade cultural brasileira, estimularam iniciativas novas, despertaram um processo salutar da economia criativa. O grande problema é a continuidade, nada se consolida. Basta mudar um governo que tudo o mais é mudado sem nenhum respeito pelo que já está em andamento, pelo trabalho, pelos recursos empregados e mesmo pelas conquistas já realizadas. É preciso mudar essa mentalidade de estarmos sempre começando do zero.

SETCENAS: O Nordeste vem se destacando cada vez mais no cenário do cinema nacional independente, com vários artistas se consolidando através de inúmeros festivais nacionais e internacionais. Entretanto, muitas destas obras permanecem no limbo após este período, não chegando muitas vezes ao grande público. Como você avalia a situação da distribuição no Brasil e, sobretudo, no Nordeste para os produtores audiovisuais?

PETRUS CARIRY: Para um filme alternativo, com um conteúdo mais vertical e alguma experimentação de linguagem, é muito difícil entrar no circuito comercial e se manter por várias semanas em cartaz. Seria necessário uma boa campanha promocional, dirigida a um público específico, seja pelas redes sociais ou pela mídia tradicional, mesmo que em baixa escala. É tudo muito difícil. Mesmo as distribuidoras que se interessam por filmes de arte são pequenas e sem os recursos necessários. Os meus longas-metragens O Grão (2007) e Mãe e Filha (2011) entraram em cartaz, mas não obtiveram público suficiente na primeira semana, mesmo tendo uma crítica muito positiva. Tiveram que sair de cartaz antes que o boca-a-boca se consolidasse. É uma pena, pois estes filmes têm muito o que dizer, mesmo para o público mais amplo, que não seja apenas cinéfilos. Tenho certeza que as pessoas que foram ao cinema e se dispuseram a embarcar na apreciação sensorial e filosófica desses filmes, tiveram uma experiência marcante. De uns dez anos para cá, o “cinema de mercado” passou a ser a pauta hegemônica. Em novembro vou lançar no circuito comercial o meu novo longa-metragem “Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois”, pela distribuidora cearense Celeste Digital, do cineasta e programador Salomão Santana. Vamos tentar fazer o filme chegar ao seu público, mesmo sabendo das dificuldades que iremos enfrentar.

"Clarisse" chega ao circuito comercial em novembro
“Clarisse” chega ao circuito comercial em novembro

SETCENAS: Seus curtas e primeiros longas têm uma forte conexão com o Nordeste e o seu povo, mais especificamente com o Ceará, ao mesmo tempo em que vislumbramos temas considerados universais, como a velhice e a morte. Na sua concepção, essas escolhas temáticas fizeram parte de um processo inconsciente ou era de fato sua intenção de mostrar como funcionam essas problemáticas universais no interior desses microcosmos existenciais?

PETRUS CARIRY: Todo cinema que trata do homem é universal. Não existe ninguém que possa viver sem as suas conexões com a humanidade, com suas heranças do passado, com as suas projeções do futuro, mas vivemos, sobretudo no “aqui e agora”, no nosso tempo inventando o novo a partir das nossas heranças. Nem mesmo o mais revolucionário e criativo de todos os artistas é capaz de fugir dessa condição humana. Sem dúvida, o Ceará e a sua cultura têm sobre a minha vida e meus filmes uma importância bem definida. No entanto, não me sinto preso à terra ou à minha própria cultura, estou sempre aberto ao diálogo com o mundo e tenho procurado realizar um cinema em trânsito, mesmo que seja todo ele rodado no Ceará. O que eu procuro fazer é conjugar a estética a uma forma de narrar que revele novas dimensões do homem, mesmo quando esta dimensão se abre para a dor, solidão e a velhice. Gosto de pensar a terra como a minha casa e a humanidade como a minha família.