Tudo sobre A Parteira: entrevista com Catarina Doolan

A diretora potiguar Catarina Doolan está para lançar seu mais novo curta-metragem. O filme se chama A parteira, e segue o cotidiano de Donana, parteira profissional de São Gonçalo do Amarante – RN. A partir de uma equipe técnica essencialmente feminina, a produção aborda, através da espontânea e divertida Donana, a importância do parto normal humanizado, resgatando um tema caro ao empoderamento feminino. O SETCENAS entrevistou Catarina Doolan, diretora e produtora executiva do curta, sobre aspectos do filme, que estreia no próximo dia 30, no Festival Cine Verão. A entrevista foi realizada em 27 de julho de 2018 por Vanessa Labre, com produção de Dênia Cruz e transcrição de Julia Sena.

VANESSA LABRE: Em 2015, você teve a sua filha, Isabela, dentro desse contexto de um parto humanizado em casa, e que contou com a participação de Donana. Esse foi o fio condutor que iniciou o processo que deu origem ao filme?

Catarina Doolan: Sim. Na minha primeira gestação, eu fiz uma cesárea e não era o que eu queria, mas como eu não tinha informações sobre o assunto, aconteceu. Já na minha segunda gestação, eu decidi ir atrás do parto humanizado e me sugeriram a Donana, que era parteira tradicional. Depois disso eu descobri que São Gonçalo do Amarante é repleto de parteiras por ser um município que levou um certo tempo para ter maternidades. Donana é uma pessoa espontânea, engraçada, uma mulher empoderada apesar da época em que ela nasceu. Do interior, ela cresceu no mato, nunca quis casar, sempre teve uma postura muito independente, então ela quebrou diversos tabus e sofreu muito com isso. Eu olhei para Júlio e ele disse: ‘essa mulher daria um documentário, é uma personagem’. Foi despretensioso na hora, mas na medida que fomos nos conhecendo, o parto se aproximando, a ideia foi se desenvolvendo. Pensei em falar sobre ela, e ao mesmo tempo ajudar a transmitir uma mensagem para outras mulheres. Então seguindo essa missão, eu quis juntar mulheres na equipe por dois motivos: deixar a gestante mais confortável e por conta do olhar feminino em uma situação feminina. Eu quis dar esse recorte possibilitando um empoderamento.

VANESSA LABRE:: Sobre a equipe, vocês compartilhavam as mesmas opiniões sobre o assunto ou isso foi sendo construído ao longo do processo?

Catarina Doolan: Algumas meninas já tinham uma inclinação, tinham um certo conhecimento, respeitavam, mas todas estavam abertas a compreender mais a situação. O nosso processo também foi de formação de equipe porque algumas delas ainda estavam iniciando. As diretoras de fotografia estavam migrando da foto para o vídeo, portanto tinham pouca experiência, outras ainda estudavam audiovisual. Então fizemos oficinas e dinâmicas enquanto a verba não entrava. Quando conseguimos o edital, isso esticou o nosso projeto. Tivemos mais ou menos um ano e meio de encontros.

VANESSA LABRE: Como foi o processo de financiamento do filme?

Catarina Doolan: Eu comecei na produção executiva do projeto e já pensava na remuneração da equipe, esse era o meu desejo. Não é só dedicação ao projeto, mas também uma alimentação de mercado. Quando as meninas disseram que participariam mesmo sem remuneração, eu não achei justo, eu disse que não. Há vários aspectos envolvidos: a valorização do nosso trabalho e do outro, a valorização do mercado e a garantia de finalização do filme, eu acho que esse deve ser o pensamento de quem faz uma produção executiva. Nossa equipe ficaria na prática até chegar a remuneração, mas eu tinha certeza que chegaria, que sairia no Cine Natal. Eu fiz isso focando no Cine Natal e também tentei o SEBRAE, e essas eram nossas duas únicas alternativas na cidade.

VANESSA LABRE: Em termos de direção, como é entrar com a câmera nesse universo íntimo da mãe em processo de parto?

Catarina Doolan: Ter a experiência ajudou, com certeza. Quando estamos em trabalho de parto, nos desconectamos daquele lugar, então eu sabia quando a gestante não estava ali. Eu poderia colocar a câmera na frente dela e ela não iria perceber. Assim, eu orientei a equipe a medida da nossa aproximação, mesclando as idas e vindas. Quando percebíamos que a gestante estava em um momento de contrações muito fortes, nos aproximávamos porque sabíamos que ela tinha se desconectado do ambiente ao redor. Portanto a minha experiência ajudou no direcionamento de como entrar nessa questão tão íntima e também o fato de respeitar aquele momento. Tínhamos esse cuidado, esse respeito, para que as imagens não ficassem pejorativas ou algo similar.

VANESSA LABRE: Fale um pouco sobre as locações do filme.

Catarina Doolan: Usamos a casa da Karina, em Pium, e filmamos também o cotidiano de Donana em São Gonçalo do Amarante, a casa dela, o trabalho – pois ela faz parte do Conselho Municipal de Saúde e também é militante. Então ela comparece a audiências públicas, reuniões e ela é presidente da Associação de Parteiras. Ela começou nisso com dezesseis anos e hoje tem sessenta e cinco.

VANESSA LABRE: Como foi capturar o cotidiano dela?

Catarina Doolan: Donana se tornou a condutora do filme. Ela achava que queríamos alguma coisa e fazia aquilo. O que foi bom para a gente é que usamos dos imprevistos que é frequente na vida dela. Depois do primeiro dia, eu virei para as meninas e disse que iríamos parar de tentar dirigir Donana e deixar que ela nos conduzisse. Não tinha pesquisa, nós gravávamos ela e só, e sempre tinha algo acontecendo, como gente chegando na casa dela para fazer curativo, ela é a enfermeira da comunidade. Sempre tem uma pessoa chamando-a no portão, ela sempre tem algo para fazer. Então ela quem conduziu o filme todo e nós seguimos.

VANESSA LABRE: Vocês começaram no início de 2016, e acabaram dando uma pausa. Qual o motivo?

Catarina Doolan: Porque estávamos com outros projetos. Retornamos quando o dinheiro estava para entrar, daí nós nos reunimos de novo, já na expectativa, isso foi no segundo semestre de 2017. Ficamos uns oito meses paradas, voltávamos de vez em quando, fazendo oficina de capacitação para a equipe, como a oficina de câmera, que foi com Júlio Castro, e de som, com o Pedro Medeiros. Também fomos todas para o curso de Alziro Barbosa, de fotografia. Era um curso oferecido pelo Canne [Centro Audiovisual Norte-Nordeste]. Depois disso fizemos encontros para orientar a direção. Isso é algo engraçado de observar porque depois que passamos por um processo de empoderamento, percebemos o quão inseguras nós somos, pois estamos cientes que receberemos uma cobrança muito maior da sociedade. Apesar do companheirismo e de diretoras e roteiristas que estão batendo de frente, ainda há uma pressão social que precisamos estar alertas. Foi assim que senti isso nas meninas, essa insegurança, mas eu falei que iríamos fazer um filme bem feito sim. Então, tivemos que construir essa confiança e isso começou com os partos, pois você passa a admirar aquela mulher que está ali, parindo. Não tem como você não ser levada por aquele momento também, pois é muito mágico, ter a oportunidade de testemunhar aquele acontecimento é uma honra. Isso já é poderoso.

VANESSA LABRE: E sobre a trilha, por que você escolheu Joana Knobbe?

Catarina Doolan: Eu não conhecia tanto o trabalho dela, mas já tinha ouvido algo mais puxado para o coco, bem diferente. E eu estava buscando uma trilha que tivesse características espirituais, principalmente focada na Donana, ela é do candomblé. Isso tudo envolvia tambor, sons da terra, naturais, que você possa remeter aos elementos da natureza. Assim eu vi que a Joana [Knobbe] gostava de experimentar sons, e depois descobri que ela também teve um parto humanizado e deu muito certo. No filme, os sons são ligados à natureza e à espiritualidade que a personagem tem.

VANESSA LABRE: Quais outros obstáculos surgiram na produção do curta-metragem?

Catarina Doolan: Mesmo tendo verba, ela não era o suficiente. A gente tinha vontade, até pela pesquisa mesmo, de ir mais vezes acompanhar a rotina de Donana em São Gonçalo do Amarante, mas não foi possível, considerando combustível e a logística que temos com a produtora. Os equipamentos, às vezes, precisavam ser divididos. Tivemos, por exemplo, que improvisar para filmar o parto de Karina porque a gente ainda não tinha verba. Usamos câmeras que não eram gêmeas, jogo de lentes insuficientes, então enfrentamos essa questão técnica que é um problema de compatibilidade, dando trabalho para a pós-produção.

VANESSA LABRE: Como você enxerga o mercado audiovisual hoje em Natal?

Catarina Doolan: Eu não estou mais morando em Natal faz 8 meses, mas quando saí, eu era vice-presidente da Associação Brasileira de Curta-Metragistas e Documentaristas do Rio Grande do Norte (ABDeC-RN) e estava muito insatisfeita pela dificuldade de acessar recursos. Não existe uma cultura de mercado, acho que ainda está em construção, pois as pessoas estão tentando, mas eu acho que começa na guerrilha. Eu não sou contra fazer coletivo ou tentar fazer na guerrilha mesmo, porque precisamos praticar e fazer currículo. Mas precisamos criar uma cultura de mercado, valorizar o nosso trabalho, saber dizer: ‘eu não vou produzir por esse valor’. O município e o Estado precisam ajudar para que a gente consiga fazer o nosso aqui e depois acessar as leis federais, e esse acesso traz benefícios para o nosso mercado aqui no sentido da economia criativa, faz girar a economia local a partir do trabalho a nível local. A gente precisa se profissionalizar e se formalizar enquanto profissionais do nosso mercado. E acho que ainda estamos muito devagar nesse processo.