Psicopatia em vermelho no filme “Precisamos falar sobre o Kevin”

A predominância da cor vermelha espelham o desajuste psicológico e social da família de Kevin

Por Danilo de Freitas

Um estudo da psicopatia na infância e adolescência

De acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), em sua quinta edição, lançada em 2013, o Transtorno da Personalidade Antissocial é descrito como um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos das outras pessoas. Abrange uma série de desajustes de ordem psicológica e social, como fracasso em ajustar-se às normas sociais, tendência a mentir repetidamente, impulsividade, irritabilidade e agressividade, além de descaso pela segurança de si ou dos outros e ausência de remorso.

Parece que os roteiristas de Precisamos Falar sobre o Kevin beberam dessa fonte ao escreverem uma história que resgata fatos e incidentes que constituem a vida e a personalidade de Kevin (Ezra Miller, em atuação atordoante). Desde seu nascimento, passando pela adolescência, até o fatídico desenlace da trama, cujo desenvolvimento já sugere a “bomba relógio” que é o Kevin, prestes a explodir a qualquer momento, na forma de algum grave acontecimento.

A difícil relação mantida com sua mãe, Eva (Tilda Swinton, interpretando de forma pesada, sufocante), e disfuncional de diversas maneiras, é uma das bases do roteiro. A começar pela maternidade conturbada (clara alusão a uma depressão pós-parto), sobrecarregada por um marido omisso, e definida pela incapacidade de suprir o bebê, seu filho, de qualquer tipo de afeto materno. Ela que, posteriormente, é manipulada por uma criança chantageadora, que vive em crônica permissividade, mas também entre atitudes apáticas e sádicas (direcionadas à mãe), que denotam as primeiras manifestações de traços psicopatológicos mais severos.

O filme frequentemente especula a respeito da tese do indivíduo ser reflexo indelével ou não de sua família (o que é ligeiramente sugerido até pela absurda semelhança física dos atores – Swinton e Miller). Assim, a psicopatologia da mãe poderia estar intrinsecamente relacionada à psicopatologia do seu filho. Com fortes contornos de oposição aos afetos, e profundas raízes estabelecidas nos vínculos familiares disfuncionais.

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Psicopatia em Vermelho

A obsessão pelo vermelho ao longo de todo o filme não é gratuita: vemos a cor em evidência na paleta rubra, em objetos de cena, nos figurinos, em diversos elementos avulsos do cenário, e sobre o corpo alvo de Eva. Todos a indicarem uma culpa indissociável dela. Por exemplo, a tinta vermelha/sangue a impregnar/sujar as próprias mãos.

A fotografia endossa tais elementos visuais. Ela fica a cargo do concorrido Seamus McGarvey, que alterna sua carreira entre blockbusters descompromissados, como Vingadores (2012) e Godzilla (2014), e obras mais autorais, como Anna Karenina (2012) e As Horas (2002). Aqui, ele constrói um clima onírico (que perdura por toda a história) através de câmeras de alta sensibilidade, acurada manipulação da luz ambiente, e uso equilibrado da cor branca, que ajuda a compor a sensação. Flashes, salpicos e faixas em vermelho escuro são incorporados à paleta e complementam o quadro.

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Questões no Ar

O filme cumpre muito bem o seu papel de análise problematizadora de uma família em ruptura. Mas acima disso, se concretiza como um estudo acurado dos elementos latentes e psicológicos que estruturam uma “família doente”.

Não estranhe, porém, se os questionamentos lançados não forem todos respondidos. O caminho escolhido por Precisamos Falar Sobre o Kevin é o de provocar discussões instigantes: Kevin é mau em sua essência? Ele nasceu assim? Será que sua mãe o fez dessa forma, ao ser incapaz de estimular os vínculos afetivos?

Obra obrigatória para pensar.

 

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PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011)

Direção: Lynne Ramsay.

Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear e Lionel Shriver.

Direção de Fotografia: Seamus McGarvey.