O inexpugnável silêncio de Tarkovsky

Há um nicho secreto, acessível a poucos, entre a vibração da última nota e o silêncio ao se encerrar a música ouvida. Dessa experiência que perpassa o mundo físico e reverbera no éter – mesmo quando o vazio normalmente se torna imperativo – advém um fenômeno denominado “permanência meta-sensorial”. É o que ocorre ao final do álbum ‘Zeit’, obra-prima do combo progressivo germânico Tangerine Dream.

A imediata analogia do exemplo citado frente ao cinema de Andrei Tarkovsky pode ser precisa para definir o que o russo obteve em parte de sua filmografia, desde o monumental Solaris (Solyaris, 1972) assassinado pelos americanos numa versão “tutti-frutti” de 2002 dirigida por Steven Soderbergh. Decerto que a diluição do original, operada com fins de assegurar óbvia rentabilidade do remake nas bilheterias e a pronta assimilação por parte do rebanho adolescente à época, transformou a concepção tarkovskyana numa aberração diminuta, que afronta o próprio conceito artístico da matriz.

Tarkovsky em “Solaris”

Reafirma-se, pois, a capacidade em proporcionar ao público tal sensação, principalmente quando destacados Stalker (1979) e O Espelho (1975), própria dos artesãos que só precisam do silêncio e da contemplação para atingir o sagrado limiar do instante meta-sensorial. Não obstante, o recurso aqui utilizado funciona em plena harmonia e congruência a todos os outros mecanismos de sua mágica, tal como prestidigitação executada sem qualquer maior atributo que a pura aplicação da sintaxe fílmica onde se encontram presentes certos elementos conhecidos do realizador: a desoladora perspectiva dos planos a céu aberto, o horizonte enevoado, o plúmbeo das ravinas encharcadas.

Sempre desafiador, Tarkovsky distribui as chaves que permitiriam abrir as “fechaduras” de seus filmes ao longo da metragem, sem condescendência, arrisque-se ou não o espectador a encontrá-las. Ao prescindir da palavra verbalizada – essa insuportável aliada do Teatro e inimiga do bom Cinema – erigiu uma obra maior que o mito, repleta de significados. Assista-a em postura reverente e eleve-se ao patamar do Conhecimento.

*Por Rodrigo Hammer, especialmente para o SETCENAS.