Violência e muita sacanagem em “Deadpool”

Do corpo sensual ao deformado: as opções do diretor para transformar Deadpool em um espetáculo visual

Por: Nathalia Macêdo

Segundo o escritor francês Guy Debord, vivemos numa sociedade do espetáculo mediada por imagens e esse excesso de informação provoca certo desencantamento. Cada vez mais banalizadas, buscamos por representações cada vez mais espetacularizadas na procura pelo maravilhamento perdido. Hoje, percebemos uma transformação da violência em espetáculo no intuito de prender nossa atenção, não através da catarse, mas por apresentar algo que desperta um interesse curioso.

O filme Deadpool (Tim Miller, 2016), é uma obra que faz uso de uma violência bruta para chamar atenção dos espectadores. Vemos corpos mutilados, cabeças cortadas, ossos quebrados, entre outras atrocidades. Nos momentos em que não há violência o filme se utiliza de diversas piadas carregadas de ironia em que o personagem principal dialoga com a câmera, dando a sensação de estar falando com quem está assistindo o filme. Além disso, também encontramos diversas cenas de sexo entre o mercenário, ainda bonitão, e a prostituta gostosa.

A narrativa é simples: Conta a história do mercenário Wade Wilson, que após descobrir ter um câncer em estado terminal, acaba se submetendo a experiências científicas na busca por uma cura. O resultado é o desenvolvimento de super poderes e uma deformação corporal que desperta no vaidoso anti-herói uma sede de vingança.

deadpool

Para o diretor Tim Miller, especialista em efeitos visuais, a escolha por cenas impactantes parece ter sido uma boa opção diante do roteiro com uma trama singela. Mostrar corpos sendo estilhaçados, construções desmoronando em meio a uma luta agressiva e pessoas caindo de grandes alturas é uma escolha estética que chama atenção e mantém o público empolgado durante o filme. Nesse sentido, a supervalorização da violência e a naturalização do horror tornam a narrativa algo complementar a imagem. A palavra, o que é dito, torna-se algo secundário.

Deadpool apresenta um espaço sem regras. Não vemos a presença da justiça ou de qualquer autoridade que possa interromper o descumprimento da lei. Os conceitos de bem e mal são desconstruídos e abordados com ironia e crítica dentro do filme.

Outro ponto importante bem explorado pelo diretor é a questão do corpo que é apresentado de diferentes formas. Em um primeiro momento, vemos o corpo como instrumento de prazer. Quando ocorre o encontro entre Wade e seu par romântico, Vanessa, ambos se permitem a diversas aventuras sexuais explorando zonas erógenas que percorrem o corpo inteiro, usando-o para despertar o desejo, prazer e amor entre os personagens. Em seguida, vemos o corpo desfigurado, que apresenta uma aparência de estranheza, não aceita nos padrões sociais, gerando a necessidade de cobri-lo por inteiro e resultando na caracterização típica de um super-héroi, que nesse caso se fantasia não para ter sua identidade preservada, mas para não ter seu corpo exposto.

O filme aborda o principio de prazer e satisfação acima de qualquer coisa. Deadpool é movido pelo desejo de ter de volta o seu corpo perfeito e sua linda namorada, para isso, ele mata e destrói lugares sem se preocupar com  mais nada. O cinema é “o outro” que vai nos mostrar quem somos e a nossa torcida por Deadpool revela muito sobre a sociedade do espetáculo em que vivemos.

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