2ª Mostra SESC de Cinema Potiguar celebra crescimento de produções do RN

A noite da última terça-feira, dia 16, coroou o duplo sucesso proporcionado pela 2ª Mostra SESC de Cinema Potiguar, realizado no auditório do SESC RN localizado na Cidade Alta.

O primeiro motivo a ser celebrado foi o expressivo número de 58 inscritos (produções das cidades de Natal, Parnamirim, Mossoró, Macaíba, São Miguel do Gostoso e São Gonçalo do Amarante), que demonstra o crescimento das produções audiovisuais comparado com a primeira edição da Mostra, realizada em 2015, que contou com 29 curtas-metragens cadastrados.

E a segunda boa-nova foi a premiação em si, com direito a pipoca e iluminação especial na entrada do auditório e a presença de grandes nomes do cinema potiguar, agraciados pelo prêmio em oito categorias (como indica no quadro ao final da matéria).

Para cada obra premiada foram entregues um troféu e a quantia de R$ 2.300,00, que corresponde ao contrato para cessão de direitos de exibições públicas do filme, que se iniciarão a partir de março de 2017 em várias cidades do Rio Grande do Norte e com perspectivas a serem distribuídas em outros estados do Brasil.

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A diretora Diana Coelho recebe o troféu da 2a Mostra SESC de Cinema Potiguar (Crédito: Arthur Cortês / LEGeo)

Mesa redonda com os realizadores

Mediado por Nelson Marques, presidente do Cineclube Natal, o bate-papo com os representantes dos oito filmes escolhidos trouxe à tona particularidades da produção dos curtas premiados.

A primeira pergunta do mediador foi direcionada ao músico e videomaker Carito Cavalcanti acerca dos gêneros cinematográficos, sobretudo animação, experimental, documental e ficcional. O diretor e vocalista do grupo Poetas Elétricos sintetiza a dinâmica do seu filme experimental Noturnos com por meio de um jogo de palavras: “Acho que experimental é como o nome já está dizendo: ‘espere-mental’, esperando o que o mental irá fazer”.

E o peso do conteúdo nas palavras de Carito encontram uma metáfora precisa: “o roteiro para mim é mais que um ponto de partida. É ‘partir’ em pedaços toda a estrutura do roteiro”, o que deixa-nos a clareza de que os fragmentos de imagens e os textos de Nina Rizzi apresentados em Noturnos são um mosaico de sensações que não há como enquadrar em categorias como documentário, experimental ou ficção. Para Carito, tudo é “fricção” de artes exibidas na tela.

E a pergunta passa dos mosaicos poéticos pulverizados nas mulheres de Natal para o caleidoscópio do cientista solitário que protagoniza o futurístico Em Torno do Sol, obra do também amante da música Vlamir Cruz que diz que todos os premiados não fazem pelo dinheiro mas pela arte. Também afirma que “em um dado momento ele [o realizador] é puxado por aquela história e a abordagem que ele encontra para a história é ficção, documentário, experimental ou animação” e que depende desse momento para que o filme se expresse com as características que o classifica, da mesma forma como Gustavo Guedes, vencedor na categoria Melhor Roteiro por Cinzas, relata que a observação que gerou o roteiro surgiu dentro de um ônibus ao som de Edson Gomes. As queimadas que acontecem na cidade inspirou Gustavo na “criação” de um personagem piromaníaco que põem em xeque o que é ficção e realidade em seu filme.

Vlamir Cruz, que possui uma larga experiência também como produtor musical por meio do selo Mudernage / Ícone Studio, divide a direção com o já conhecido Júlio Castro, que curiosamente também desempenha papel fundamental no curta-metragem Vivi (co-dirigida por Catarina Doolan). Outra coisa em comum foi que ambos receberam o prêmio de Melhor Direção de Arte, agraciando Karoline Barreto e Vlamir Cruz por Em Torno do Sol e Romy Rauen por Vivi. Porém, a obra de ficção-científica de 12 minutos recebeu mais dois prêmios por Melhor Fotografia (Júlio Castro) e Melhor Som (Paolo Araújo e Vlamir Cruz).

Exibição do filme "O Impreciso Mar que nos Move" na 2a Mostra SESC de Cinema Potiguar (crédito: Arthur Cortês / LEGeo)
Exibição do filme “O Impreciso Mar que nos Move” na 2a Mostra SESC de Cinema Potiguar (crédito: Arthur Cortês / LEGeo)

Com mais dois prêmios em seu currículo (Melhor Direção para Márcia Lohss e Categoria Melhor Ator para George Holanda), Três Vezes Maria consolida todo o potencial desse “piloto” (como usualmente é chamado o primeiro episódio que podem compor uma série televisiva ou virtual) em termos de qualidade imagética e narrativa.  Márcia Lohss, relatou que o ano de sua produção marca a gênesis do Coletivo Caboré em 2014, juntamente com o filme Janaína Colorida feito o Céu de Babi Baracho, um marco na sistemática produção audiovisual potiguar.

A diretora comentou sobre o desenvolvimento colaborativo do filme e a pesquisa necessária para o desenvolvimento da história, como as idas em prostíbulos da cidade para colher casos que inspiraram os roteiros da série, e o desafio de construir este curta que possui três protagonistas femininas fortes. “Cinema não se faz sozinho. Mesmo que se faça com uma equipe pequena, você precisa dessas pessoas que estão com você e eu acho que o sucesso está em conseguir coordenar e fazer com que todo mundo pense junto e trabalhe junto”, afirma a cineasta, categoricamente.

Fora das telas, além de Márcia, o protagonismo feminino também se mostrou forte com a presença de Dênia Cruz, uma das diretoras do belíssimo e pertinente documentário sobre o cinema independente O Impreciso Mar que nos Move, do qual recebeu em nome da editora Fernanda Pires o prêmio de Melhor Montagem, Catarina Doolan com a comédia mórbida Vivi, que além do prêmio já mencionado também recebeu pela categoria Melhor Atriz para Quitéria Kelly, e Diana Coelho que divide a direção com Helio Ronyvon do generoso curta documental Som do Morro, obra que recentemente foi exibida para todo o Brasil em canal de TV por assinatura.

Alexandre Santos, co-diretor de “O Impreciso Mar que nos Move” (e que teve outro trabalho seu exibido nesta mostra, “Cordelíricas Nordestinas”, com co-direção de Bruna Mara Vanderley), também contribuiu com o debate ao afirmar a importância do filme Quarto 666 de Win Wenders, inspiração direta do modus operandi para este documentário que foi realizado no festival. Outra realizadora que revelou suas opções estéticas foi Catarina Doolan e sua admiração pelo trabalho de Jean-Pierre Jeunet, sobretudo com o clássico moderno O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Uma menção que não poderia ficar de fora e que transcende ao audiovisual foi o filme-testemunhal Pedro, dirigido pelo próprio Pedro Borges e que merece ser visto e aplaudido. A 2ª Mostra SESC de Cinema Potiguar encerrou mostrando mais uma vez que o cinema é feito por profissionais e amigos que celebram juntos o despontar de suas carreiras e o amor pela sétima arte.

Bate-papo com os realizadores mediado por Nelson Marques, presidente do Cineclube Natal (Crédito: Arthur Cortês / LEGeo)
Bate-papo com os realizadores mediado por Nelson Marques, presidente do Cineclube Natal (Crédito: Arthur Cortês / LEGeo)

Acompanhe a lista dos premiados da 2ª Mostra SESC de Cinema Potiguar 2016:

Categoria Melhor Ator: George Holanda (Três Vezes Maria)

Categoria Melhor Atriz: Quitéria Kelly (Vivi)

Categoria Melhor Direção de Arte: Romy Rauen (Vivi); Karoline Barreto e Vlamir Cruz (Em Torno do Sol)

Categoria Melhor Direção de Fotografia: Júlio Castro (Em Torno do Sol)

Categoria Melhor Som: Paolo Araújo e Vlamir Cruz (Em Torno do Sol)

Categoria Melhor Montagem: Fernanda Pires (O Impreciso Mar que nos Move)

Categoria Melhor Roteiro: Gustavo Guedes (Cinzas)

Categoria Melhor Direção: Márcia Lohss (Três Vezes Maria)

A seguir, lista dos selecionados para a 2ª Mostra SESC de Cinema Potiguar 2016:

O Impreciso Mar que nos Move de Alexandre Santos, Dênia Cruz, Fernanda Gurgel e Rômulo Sckaff

Som do Morro de Diana Coelho e Helio Ronyvon

Vivi de Catarina Doolan e Júlio Castro

Em Torno do Sol de Vlamir Cruz, Júlio Castro e Sidenei Júnior

Cinzas de Gustavo Guedes

Noturnos de Carito Cavalcanti e Joca Soares

Pedro de Pedro Borges

Cordelíricas Nordestinas de Alexandre Santos e Bruna Mara Wanderley

Três Vezes Maria de Márcia Lohss